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CPFR como Mecanismo de Integração da Cadeia de Suprimentos:
Experiências de Implementação no Brasil e no Mundo Aline Ribeiro 1. IntroduçãoA integração da cadeia de suprimentos ainda é, para grande parte das empresas, uma utopia. O CPFR (Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment) representa uma estratégia que promete ultrapassar as barreiras encontradas até hoje para a integração e oferecer parte dos benefícios de uma cadeia de suprimentos sincronizada a partir do planejamento integrado de vendas e reposição de estoques entre indústria e varejo. Artigo
publicado pelo CEL/COPPEAD em 2000 apresentou os 9 passos a serem seguidos
para implementação de uma estratégia de CPFR. De
lá para cá muitas empresas têm experimentado os
benefícios e dificuldades de se implementar um processo como
este, e, atualmente, já existem diversos resultados à
disposição daqueles que preferiram não se aventurar
até então. Este artigo tem como objetivo apresentar resultados de um grupo significativo de empresas que implementaram o CPFR. Neste sentido, procura responder questões como:
Iniciativas Anteriores ao CPFR - Aspectos Inibidores da Difusão Algumas das primeiras iniciativas de integração da cadeia de suprimentos ocorreram há pouco mais de 10 anos atrás quando movimentos como o ECR (Efficient Consumer Response) e o VMI foram criados. Com a filosofia de que a otimização da cadeia de suprimentos deveria ser suportada por uma relação de confiança entre indústria e varejo, a partir do compartilhamento de informações estratégicas, sistemas de ECR começaram a ser desenvolvidos em uma série de empresas. O movimento do VMI (Vendor-managed Inventory), onde o fornecedor é responsável pelo gerenciamento e reposição do estoque do cliente, também passou a se implementado por grandes empresas, mas a parceria pioneira foi entre a Procter & Gamble e o Wal-Mart, nos EUA, que terminou por potencializar a difusão do VMI no setor de bens de consumo. No entanto, o ponto fraco do VMI consistia na falta de visibilidade da cadeia como um todo: informações dos pontos de venda, bem como o estoque nas lojas era negligenciado e apenas as variações do estoque no CD principal ou nos CD's avançados eram considerados no processo de reposição. Estas deficiências levaram as empresas a buscarem técnicas de integração alternativas. Uma destas alternativas foi o CRP (Continuous Replenishment Programme), que leva em consideração tanto as informações de estoque nos pontos de venda como também passa a realizar previsões de venda a partir da informação histórica de venda do cliente. Apesar
do CRP já se configurar numa alternativa aprimorada em relação
ao VMI, a previsão de vendas feita pelo fornecedor era exclusivamente
dependente da capacitação e dos algoritmos desenvolvidos
pelo analista responsável pela conta. Como não levava
em consideração informações atualizadas
do cliente (como promoções ou introdução
de novos produtos), os erros de previsão geravam níveis
de estoque ainda elevados. O CPFR e as Empresas que o têm Implementado no Mundo A onda seguinte ao CRP foi o CPFR, que buscou cobrir os gaps deixados pelas iniciativas anteriores (VMI e CRP). Algumas das mudanças preconizadas pelo movimento do CPFR foram:
A primeira iniciativa de construção de sistemas que traduzissem a filosofia do CPFR ocorreu em 1995 com a Warner-Lambert e o Wal-Mart, apoiados pela SAP, Manugistics e Benchmark Partners. As empresas acordaram na elaboração de previsões de venda individuais, preparadas com seis meses de antecedência e detalhadas por semana, loja e SKU. As previsões eram então comparadas e, em caso de discrepância significativa, as equipes de cada empresa se reuniam para definir uma previsão unificada. Dentre os benefícios obtidos, destacam-se a redução de estoque da ordem de 25% ao longo do piloto e um aumento em US$ 8,5 Milhões (sem introdução de novos produtos) nas vendas do Wal-Mart. De lá para cá, os resultados têm sido sentidos por empresas em diversos setores da economia. A figura 1 apresenta algumas grandes empresas que já passaram pelo processo de implementação do CPFR nos EUA (levantamento realizado em 2001 ).
Diversas
pesquisas têm sido conduzidas sobre CPFR com a intenção
em identificar seu nível de adoção, status, resultados
e planos para o futuro. Em geral, 10 a 15% das empresas do setor de bens
de consumo afirmaram já terem implementado CPFR, outros 10 a 15%
pretendiam implementar em 2002 (pesquisa realizada em 2001 nos EUA), e
20% em 2003 ou 20042.
Alguns países com pilotos de CPFR em funcionamento são: EUA, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Nova Zelândia, Filipinas, México e Brasil. No entanto, devido à baixa divulgação dos resultados de implementações, é possível que grande parte das experiências não sejam de conhecimento público. O Processo de Implementação - Principais Inibidores e Facilitadores Pesquisa realizada com 220 executivos membros do VICS CPFR (Voluntary Interindustry Commerce Standards do CPFR), grande parte situados nos EUA e 61% com experiência em projetos piloto ou programas completos de implementação de CPFR, mostrou as principais dificuldades encontradas nas implementações . Para um melhor entendimento destas dificuldades, o processo foi mapeado e segmentado em 4 sub-processos:
Dentro
destes sub-processos foram levantadas 51 atividades. Para cada uma delas,
os respondentes apontaram quais as que foram completadas com sucesso e
quais aquelas cujos resultados não foram satisfatórios.
Os primeiros dois sub-processos estão relacionados ao planejamento do CPFR. Neles, foi constatada uma taxa de sucesso de implementação das atividades bastante alta, à exceção da atividade de definição da abrangência de atuação do parceiro (ex. lojas ou CD's a serem considerados no processo) e das metas de previsão. Nestes casos, a taxa de sucesso fica em torno de 75%. Das atividades mais operacionais e tradicionais do processo, como a elaboração da previsão de vendas e das ordens de ressuprimento, a taxa de sucesso é de 92%, segundo os entrevistados. Já as atividades operacionais relacionadas às exceções do processo, como o tratamento das exceções na previsão de vendas e a identificação e negociação da viabilidade do atendimento das ordens de ressuprimento, têm uma taxa de sucesso de 74% e de 65%, respectivamente. Esta pesquisa,
assim como outras experiências levantadas na literatura, apontam
para algumas das principais dificuldades encontradas no processo de
implementação do CPFR. A figura 2 levanta algumas destas
questões.
Além disto, algumas dicas deve ser consideradas na tentativa de contornar ou minimizar estes problemas. A figura 44 aponta algumas destas dicas, resultados de experiências anteriores.
Os Recursos que podem ou devem ser Consumidos na Implementação No período que antecede a implementação de uma iniciativa como esta, é comum a empresa se preocupar com a necessidade e consumo de recursos. Tipicamente, eles estão restritos à:
No
que diz respeito a TI, implementações típicas de
programas de CPFR não apontam para a necessidade de investimentos
expressivos em tecnologia. Sua operação pode ser feita a
partir de ferramentas simples, como planilhas e e-mails. No entanto, sistemas
de apoio a processos como este têm se mostrado eficiente à
medida que potencializa os resultados e facilita o bom andamento da operação.
São extremamente recomendáveis quando o número de
participantes passa a ser significativo, ou mesmo quando o número
de itens/loja a serem gerenciados é grande.
À
medida que as implementações tornam-se mais complexas,
seja pelo elevado número de itens ou pelo número de participantes
do programa de CPFR, surge a necessidade de ferramentas que incorporem
funcionalidades como:
O primeiro
passo na implementação de um programa mais sofisticado
de CPFR é a integração dos sistemas de ERP das
empresas. Aí já começam as primeiras dificuldades.
Pesquisa realizada com 120 empresas, dentre elas fabricantes, varejistas,
distribuidores e prestadores de serviço logístico, grande
parte atuando no setor de bens de consumo, mostrou a grande diversidade
de ambientes existentes (vide figura 5) . Nesta pesquisa, foi constatado
que, apesar de prevalência de sistemas como da J.D.Edwards, SAP
e Oracle, existem uma série de outros sistemas de ERP em operação
nas empresas que implementam CPFR.
Este é um dos motivos que levou as empresas que implementaram CPFR, a utilizar auxílio de consultoria ou de sistema integrador como forma de viabilizar a compatibilidade entre os sistemas. Destas 120 empresas pesquisadas, 20% demonstram interesse em terceirizar o gerenciamento da troca de dados entre as empresas do programa. Em geral, são as grandes empresas que apresentam disposição para a terceirização. Já as menores, preferem manter a informação e tecnologia "dentro de casa". No caso de empresas médias, existe interesse em terceirizar a tecnologia e utilizar provedores de aplicativos (Application Service Provider - APS) para o serviço de gerenciamento da troca de dados. A figura
6 apresenta, de forma esquemática, o papel de cada sistema no
processo de troca de informações no CPFR. Os provedores
de aplicativos com sistemas colaborativos vêem a substituir a
necessidade de servidores web próprios com ferramentas de colaboração
instaladas.
A comunicação entre os diversos ambientes ERP é viabilizada por meio de sistemas que utilizam linguagens universais como o EDI (Enterprise Data Interchange) ou o XML (Extended Markup Language). O primeiro, no entanto, devido à sua pesada estrutura de dados não tem se mostrado uma boa alternativa às implementações de CPFR mais complexas. Nos últimos anos (a partir de 1999), empresas com IBM, Microsoft, Novell, Oracle e Sun têm anunciado a criação de sistemas baseados em XML. Estes novos desenvolvimentos permitirão o acesso e o gerenciamento de um grande volume de transações geradas pela necessidade de comunicação entre as empresas. Além disto, empresas como Manugistics, Logility, Oracle e i2 Technologies afirmam dispor de servidores de aplicativos que podem ser utilizados para troca de informações entre as empresas participantes de programas de CPFR. Além dos sistemas integradores, também já existem disponíveis no mercado algumas ferramentas que suportam outras funcionalidades relevantes no processo, como o gerenciamento e rastreamento de eventos (itens ii e iii mencionados anteriormente). A figura 7 apresenta a avaliação de alguns dos sistemas de CPFR mais comumente encontrados . Segundo a pesquisa, a SAP é a que oferece a melhor relação Familiaridade X Desempenho.
Além de ERP's, os sistemas de WMS, Supply Chain Planning, Previsão de Vendas, MRP, DRP e CRM potencializam o programa de CPFR, apesar de não serem condições necessárias para sua implementação. O consumo de recursos humanos é outro aspecto relevante na tomada de decisão. Desta forma, o tempo de implementação é um fator que deve ser considerado, pois, neste período, deve ser intensiva a atuação de uma equipe multifuncional. Sua duração deverá variar de acordo com vários fatores. Uma das questões que podem influenciar na duração da implementação é a decisão das empresas em começar "pequeno" e adquirir experiência para expandir o CPFR para todos os itens e locais, ou construir toda a infra-estrutura necessária para suportar o programa para toda a empresa. Ambas as estratégias são razoáveis. No entanto, os pioneiros afirmam que é aconselhável começar "pequeno". Desta forma, a duração de um piloto pode ser tão curta quanto 2 ou 4 semanas, à mais de 2 anos. No entanto,
não tem sido observada, no período pós-implementação,
a necessidade de contratação de pessoal para esta nova
atividade. O que normalmente ocorre é a realocação
de funções, principalmente daquelas que vêm sendo
destinadas à solução de problemas (o que, em algumas
organizações, corresponde a 50% do pessoal). Com um melhor
planejamento, a necessidade de pessoas resolvendo problemas é
significativamente menor. Casos e Resultados de Implementações no Brasil e no Mundo
No Brasil, as iniciativas relacionadas ao planejamento colaborativo ainda são incipientes, são pouquíssimos os casos conhecidos e mesmo assim, grande parte deles ainda não implementou todos os passos do programa. Esta situação é motivada por questões como:
Devido às escassas iniciativas de implementação do CPFR no Brasil, e mesmo no mundo, não existe uma amostra que permita inferir os benefícios quantitativos deste programa no Brasil dada determinada condição da implementação (ex. tipo de indústria, abrangência e sofisticação da implementação). No entanto, foram identificados os tipos de benefícios encontrados nas implementações realizadas (vide figura 8).
Pesquisa com empresas européias, mencionada anteriormente neste trabalho, apontou o grau de cumprimento dos objetivos definidos à época da implementação do CPFR (vide figura 9). Nela, nota-se que o aumento do nível de serviço e a redução de custos, principalmente de estoques, estão presentes em grande parte das experiências com implementações de CPFR.
Conclusões Implementar CPFR significa muito mais do que compartilhar previsões de venda ou conversar mais com seu fornecedor ou cliente: é necessária uma visão mais ampla da parceria. Desta forma, o entendimento profundo do significado desta palavra é o primeiro passo da implementação do CPFR. Este também é seu maior obstáculo. No fim das contas, parceria é todo e qualquer esforço de duas ou mais empresas no sentido de aumentar o resultado da cadeia como um todo, o que inclui aumento de vendas e eficiência no uso de ativos, mas também pode incluir o aumento de determinado item de custo A preocupação com o custo individual deve, portanto, ser deixada em segundo plano. Difícil? Muitas empresas têm conseguido... Os casos e resultados apresentados neste documento levantam grande parte dos benefícios encontrados com implementação de programas de CPFR no ambiente empresarial. O que se tem observado, de maneira geral, é que um dos principais benefícios apontados está associado ao aumento das vendas. Isto é, provavelmente, conseqüência da mudança na filosofia push (fabricante produz o que acha importante) para pull (o cliente compra o que deseja). Outros benefícios estão relacionados à redução do custo de estoque e de vendas da cadeia, conseqüência de um processo de ressuprimento e previsão de vendas mais bem ajustados. É
claro que as dificuldades não são poucas: são necessários
muitos ajustes nos sistemas de informação e na filosofia
das empresas envolvidas. Nada que dedicação e planejamento
não sejam capazes de resolver. Referências Bibliográficas Barratt,
Mark; Oliveira, Alexander. Exploring the Experiences of Collaborative
Planning Initiatives. International Journal of Physical Distribution
& Logistics Management; 2001; 31, 4; p.266.
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