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Comparação
entre as abordagens Top-Down e Bottom-Up para Previsão de Vendas
Leonardo
Julianelli
A previsão de vendas desempenha papel de grande importância
no planejamento e coordenação dos fluxos de informação
e de produtos físicos em uma empresa, tendo impactos relevantes
no gerenciamento de marketing, na programação e controle
da produção, nas operações logísticas
e nas decisões de planejamento da capacidade das instalações.
O imperativo por redução de custos e os avanços da
tecnologia da informação fizeram com que as empresas buscassem
um aprimoramento de seus métodos e integração dos
processos de previsão de vendas, que, até então,
era realizada por cada área da empresa separadamente, o que, quase
sempre, resultava em perda de precisão e aumento dos níveis
de estoque.
O aumento da complexidade nos sistemas logísticos, com a multiplicação
dos pontos de vendas, aumento do número de locais de produção
e armazenagem e redução do ciclo de vida e proliferação
de produtos, resultou em um aumento da dificuldade de realizar previsões
de vendas. As empresas de varejo, por exemplo, precisam realizar previsões
para milhares de itens diferentes em centenas de pontos de vendas. Essas
previsões apresentam, em geral, baixa acurácia, o que resulta
em stockout de alguns produtos e níveis excessivos de estoque para
outros. Existem duas abordagens para a realização da previsão
de vendas nestes casos: Top-Down ou Bottom-Up.
A abordagem Top-Down consiste em realizar previsões de vendas para
séries consolidadas, isto é, a previsão é
realizada para vendas agregadas de vários produtos ou de várias
regiões. Na abordagem Top-Down, também conhecida como abordagem
analítica, a previsão de vendas é feita para grupos
ou famílias de produtos e depois desagregada para cada item, segundo
o percentual histórico de vendas. Também é possível
fazer uma previsão agregada para uma região e, então,
decompor em previsões para as diversas localidades que compõe
esta região, segundo sua representatividade histórica. A
Figura 1 mostra um exemplo bastante comum da abordagem Top-Down nas indústrias
de bens de consumo não-duráveis: a empresa realiza a previsão
de vendas de um determinado produto com base nos dados históricos
das vendas totais e, posteriormente, decide o volume que será enviado
para cada centro de distribuição, segundo a representatividade
(em %) destes.
Na
abordagem Bottom-Up, a previsão é realizada diretamente
para cada item ou para cada localidade e, posteriormente, agregada por
família/grupo de produtos ou por regiões. A Figura 2 apresenta
um exemplo da abordagem Bottom-Up. Neste caso, os centros de distribuição
têm autonomia para realizar a previsão de vendas de um
determinado produto, que, então, é enviada para a fábrica
e consolidada para gerar as ordens de produção e remessa.
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A escolha
de uma ou outra abordagem para a realização da previsão
de vendas tem impactos operacionais e estratégicos para a empresa.
Em geral, as empresas optam pela estratégia que minimiza o erro
de previsão, porém outros fatores também são
levados em consideração, tais como os custos de implementação
e operação do método. A decisão, pois, de
qual abordagem escolher é de grande importância para um
grande número de empresas, com destaque para as grandes empresas
de varejo, distribuição e produção de bens
de consumo não-duráveis. Serão apresentadas, a
seguir, algumas comparações entre as duas abordagens,
no que se refere aos custos de implementação e operação
e a acurácia.
Custo
de Implementação e Operação
Com relação aos custos, o principal argumento dos defensores
da abordagem Top-Down é que armazenar informações
e realizar previsões de vendas para milhares de itens é
muito caro. Desta forma, a abordagem Bottom-Up seria muito mais dispendiosa
em termos de: (a) armazenamento de dados, (b) tempo requerido para o
cálculo e (c) utilização de recursos computacionais.
No entanto, alguns estudos (Schwarzkopf, Tersine e Morris, 1988) evidenciam
que não existe diferença significativa, em termos de custo,
entre as duas abordagens.
Para realizar a comparação de custos entre as abordagens
Top-Down e Bottom-Up, utilizou-se o método quantitativo do amortecimento
exponencial simples para realizar as previsões, pois este é
um método bastante utilizado para o cálculo da previsão
de valores futuros em séries relativamente estáveis, isto
é, séries sem sazonalidade e sem tendência. Neste
método, a previsão de vendas é calculada com base
em três parâmetros: vendas reais do período anterior
(Rt-1), previsão de vendas do período anterior
(Pt-1) e a constante de amortecimento (a).
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(a) Armazenamento
de Dados
O custo de armazenamento de dados pode ser calculado pelo custo do espaço
de armazenagem e pelo esforço necessário para manter os
dados atualizados. Na maioria dos sistemas de informação,
o esforço de atualização das informações
é mais importante do que o custo do espaço de armazenagem,
pois envolve sistemas e pessoas.
O custo do espaço de armazenagem é calculado com base
na quantidade de informações que são armazenadas.
Na abordagem Top-Down, para a realização da previsão
de vendas, pelo método do amortecimento exponencial simples,
de cada item de uma determinada família de produtos são
necessárias as informações sobre as vendas totais
desta família de produtos no último período, a
previsão de vendas totais do último período e a
representatividade de cada item em relação às vendas
totais da família. Para obter esta representatividade histórica,
no entanto, são necessárias todas as informações
sobre as vendas de cada item nos períodos anteriores. Na abordagem
Bottom-Up, para realizar a mesma previsão de vendas, são
necessárias apenas as informações de vendas do
último período. Desta forma, em geral, a abordagem Bottom-Up
requer menos dados armazenados para a realização da previsão.
Além da quantidade de informação que é armazenada
para que se possa realizar a previsão de vendas, outra dimensão
relevante é a freqüência que estes dados são
utilizados. Na abordagem Bottom-Up, em todos os períodos é
necessário resgatar as informações de vendas e
previsão para o período anterior de cada item, isto é,
as informações são atualizadas em cada período
para que se obtenha uma nova previsão. Já na abordagem
Top-Down, em geral, não existe necessidade de se rever o percentual
de participação de cada item a cada período, uma
vez que estes percentuais costumam se manter relativamente estáveis
ao longo do tempo. A revisão destes percentuais pode, por exemplo,
ser realizada anualmente. Assim, as únicas informações
a serem atualizadas periodicamente são as vendas totais e a previsão
de vendas da família de produtos. Desta forma, em geral, a abordagem
Top-Down requer menos esforço para atualização
dos parâmetros. No entanto, quando as séries de representatividade
(em %) de cada produto forem instáveis, ambas as abordagens demandam
essencialmente o mesmo esforço de manutenção.
A Tabela 1 mostra as diferenças entre as abordagens, em relação
ao custo de armazenamento de dados, indicando aquela de menor custo.
Estas diferenças são influenciadas pelas características
das séries de vendas.
(b) Tempo
Requerido para o Cálculo
Outra medida de custo para um sistema de previsão de vendas é
o tempo requerido para o cálculo, que pode ser avaliado pelo
número de operações matemáticas realizadas
para chegar à previsão de vendas de cada item.
Na abordagem Top-Down, os cálculos para a obtenção
da previsão de vendas de cada item seriam:
Desta
forma, na abordagem Top-Down, temos 3+N operações matemáticas,
onde N é o número de itens da família de produtos.
Na abordagem Bottom-Up, os cálculos para se obter a previsão
de vendas para cada item seriam:
Desta forma,
na abordagem Bottom-Up, temos 3N operações matemáticas,
onde N é o número de itens da família de produtos.
Assim, quando não existe necessidade de atualização
constante da representatividade de cada item, a abordagem Top-Down apresenta
uma certa vantagem. No entanto, se fosse necessário atualizar
periodicamente a representatividade histórica de cada produto,
o número de operações matemáticas a serem
realizadas para a obtenção da previsão de vendas
seria praticamente o mesmo nas duas abordagens. Observe na Tabela 2
a comparação entre as abordagens.
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(c) Utilização
de Recursos Computacionais
A utilização de recursos computacionais pode ser medida
pelos acessos ao disco rígido do computador. No entanto, como
é difícil avaliar o valor de um acesso ao disco rígido,
segue-se a regra geral de que a diferença entre as duas abordagens
está no fato de que, como discutido anteriormente, na abordagem
Bottom-Up é necessário acessar um número maior
de informações e, por isso, esta abordagem requer uma
maior utilização de recursos computacionais.
Apesar
das aparentes diferenças entre as abordagens Top-Down e Bottom-Up,
com relação aos custos de implementação
e operação, Schwarzkopf, Tersine e Morris (1988) mostram
através de simulação que, na prática, estas
diferenças não são significativas. Eles simularam
as previsões para um conjunto de 10.000 itens diferentes, incluindo
variações sazonais e tendência nas séries
de vendas, e encontraram resultados idênticos de custos de armazenamento
de dados e utilização de sistemas computacionais nas duas
abordagens. A única diferença constatada na simulação
foi do tempo necessário para o cálculo, que na abordagem
Top-Down foi 4 segundos mais rápido, o que significa dizer que,
se a hora desta operação custasse R$1.000,00, a diferença
seria de R$ 1,11.
O aumento da complexidade das previsões e a estrutura organizacional
da empresa podem influenciar nos custos de cada abordagem. No entanto,
como conclusão geral, pode-se dizer que não existem diferenças
significativas de custos entre as abordagens Top-Down e Bottom-Up para
previsões de vendas de itens individuais. A escolha da metodologia
deve ser influenciada por outros fatores, como a acurácia da
previsão.
Acurácia
da Previsão de Vendas
A mensuração da acurácia é bastante complexa
e deve levar em consideração, além da (a) precisão
da previsão de vendas, (b) os vieses e (c) a robustez da abordagem.
Para examinar a performance das abordagens Top-Down e Bottom-Up nestes
fatores, não será escolhido um método específico
para a realização da previsão de vendas. A escolha
e aplicação de um método de previsão podem
tornar a análise muito complexa e desviar a atenção
do objetivo de comparar a acurácia das abordagens.
(a) Precisão
A precisão da previsão de vendas é medida pela
variabilidade dos valores estimados em relação aos valores
observados. Em outras palavras, a precisão de uma abordagem de
previsão de vendas é medida pelo tamanho do erro, isto
é, por quão diferente são os valores observados
dos valores previstos. O erro é definido como a média
da diferença quadrada entre as estimativas e os valores reais,
sendo calculado pela variância (Var) destes valores. Os defensores
da abordagem Top-Down, baseados no princípio estatístico
que sugere que uma série formada pela soma de vários itens
é menos variável do que as séries dos itens individuais,
afirmam que esta seria inerentemente mais precisa do que a abordagem
Bottom-Up.
O problema com esta análise está no fato de que ela não
considera uma correlação entre as séries de vendas
dos dois produtos. Na maioria dos casos reais, no entanto, existe correlação
positiva ou negativa entre as vendas dos produtos de uma família.
Por exemplo, o aumento das vendas de um determinado produto pode alavancar
as vendas de toda a família de produtos do qual faz parte. Neste
caso, existe correlação positiva entre as séries
de vendas. Por outro lado, o aumento das vendas de um determinado produto
pode diminuir as vendas de um produto correlato da mesma família.
O lançamento de uma nova embalagem (novo SKU - stock keeping
unit) ou o aumento na propaganda de um item podem fazer com que consumidores
passem a preferir este novo item ou o produto em maior evidência
em detrimento de outro produto consumido anteriormente da mesma família
e, por conseqüência, da mesma empresa. Este processo recebe
o nome de "canibalização" (ou efeito portfólio)
e indica correlação negativa entre as séries de
vendas.
Para efeito prático, isto significa dizer que a série
de vendas consolidadas de uma família de produtos com forte correlação
positiva entre seus itens terá uma variância maior do que
a soma das variâncias das séries de vendas de cada item.
Deste modo, o erro da previsão calculada pela abordagem Top-Down
será maior do que o erro da abordagem Bottom-Up. No caso de uma
forte correlação negativa, o efeito inverso será
observado e a abordagem Top-Down apresentará vantagens sobre
a abordagem Bottom-Up. A Tabela 3 mostra a variância calculada
para séries de vendas de produtos com correlação
positiva e com correlação negativa.
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O efeito
das correlações entre as séries de vendas de produtos
de uma empresa deve ser cuidadosamente estudado, pois, como visto no
exemplo acima, têm grande influência na decisão de
qual abordagem adotar para realizar a previsão de vendas. Outros
estudos (Gordon, Morris e Dangerfield, 1997) compararam as duas abordagens,
utilizando diferentes métodos quantitativos e qualitativos e
variando as características das séries de vendas, e encontraram
resultados semelhantes, ou seja, independente do método utilizado
para calcular a previsão de venda, a abordagem Bottom-Up apresenta
melhores resultados para séries positivamente correlacionadas
e a abordagem Top-Down para séries negativamente correlacionadas.
(b) Vieses
Avaliando apenas a precisão da abordagem (a), desconsideram-se
outros importantes fatores de acurácia da previsão de
vendas, tais como o impacto de vieses (b) nas previsões de vendas
dos produtos. Viés é um desvio constante (positivo ou
negativo) da previsão de vendas em relação às
vendas reais, causado pela inexatidão do método de previsão
de vendas. A existência de vieses é bastante comum em previsões
de vendas, uma vez que os métodos não são exatos
e que estas sofrem, com freqüência, influência de julgamentos
otimistas ou pessimistas.
Na abordagem Bottom-Up, como a previsão é realizada para
cada produto, o viés em uma das séries não interfere
na acurácia, pois o processo de modelagem individual de cada
série elimina o viés. Já na abordagem Top-Down,
o viés terá um impacto negativo na acurácia, pois
este será distribuído incorretamente entre as previsões
de cada item.
Desta forma, além da componente de erro relativo a precisão,
existe uma outra componente de erro que se refere ao modelo de previsão
de vendas. Na prática, é necessário avaliar se
esta componente desempenha papel significativo que possa alterar a decisão
de qual abordagem utilizar pelo critério de precisão.
(c) Robustez
A robustez de uma abordagem pode ser avaliada pela influência
de dados problemáticos ou inadequados nas séries de vendas.
Estatísticos acreditam que modelos baseados em dados agregados
(Top-Down) são mais robustos, pois modelos baseados em dados
não-agregados (Bottom-Up) tendem a ser mais sensíveis
a outliers na amostra.
Resumindo,
existem três dimensões de erro que devem ser incluídas
no processo de escolha da abordagem a ser utilizada para realizar a
previsão de vendas: precisão, vieses e sensibilidade a
dados errados (influência de outliers). As abordagens Top-Down
e Bottom-Up se comportam de maneira diferente em cada uma destas dimensões,
o que torna bastante complexo o processo decisório de escolha
da abordagem a ser utilizada.
Os resultados sugerem que a abordagem Top-Down reduz os efeitos do erro
aleatório e da influência de outliers nas séries
de vendas, sendo, pois, mais robusta que a abordagem Bottom-Up. No entanto,
esta última se comporta melhor frente ao efeito de vieses. Além
disso, a abordagem Top-Down introduz uma complexa interação
entre os efeitos provocados por vieses e outliers nas vendas.
Em relação a acurácia de cada abordagem, podemos
concluir que existem diferenças significativas. A decisão
de qual abordagem utilizar, no entanto, depende muito do comportamento
das séries de vendas. Correlação entre produtos,
existência de vieses e de outliers e representatividade de cada
produto irão determinar qual abordagem deverá ser utilizada.
Em geral, estudos empíricos indicam que a variável com
maior impacto sobre o erro e, portanto, a de maior importância
para a análise é a precisão. A existência
de correlação positiva ou negativa (efeito portfólio)
entre os produtos, conforme demonstrado na Tabela 3, tem forte impacto
na decisão de qual abordagem deverá ser utilizada.
Correlações positivas são encontradas, por exemplo,
em produtos que seguem as mesmas variações sazonais. Correlações
negativas são encontradas, muitas vezes, em variações
(tamanho, embalagem ou modelo) de um mesmo produto. Por exemplo, a venda
de ventiladores e condicionadores de ar seguem o mesmo padrão
sazonal, influenciado por fatores climáticos, e apresentam forte
correlação positiva. A previsão de vendas deve,
pois, ser realizada separadamente (Bottom-Up). Já entre os ventiladores,
existem diversos modelos diferentes e, apesar das vendas acompanharem
os efeitos sazonais, as vendas de cada modelo são influenciadas
por outros fatores, havendo "canibalização"
de vendas entre os modelos. Neste caso, será mais eficiente realizar
uma previsão agregada para toda a família de ventiladores
e, depois, desagregar esta previsão pela representatividade histórica
de cada modelo (Top-Down).
Conclusão
Conforme analisado, existem aspectos positivos e negativos em cada uma
das abordagens. A comparação entre as abordagens Top-Down
e Bottom-Up mostra que existe espaço para utilização
de ambas. Ao mesmo tempo em que uma previsão Top-Down pode ser
mais precisa, previsões individuais para cada item podem ajudar
a identificar padrões de demanda. Elas não são,
pois, excludentes e podem ser utilizadas de forma combinada, em um modelo
híbrido.
Se a empresa utiliza a previsão de vendas para desenvolver planos
estratégicos e decidir orçamentos, a abordagem Top-Down
pode ser preferida. Por outro lado, se a previsão de vendas é
utilizada para organizar os calendários de produção
e distribuição, a abordagem Bottom-Up provavelmente será
escolhida. Desta forma, a escolha da abordagem depende, além
do comportamento dos dados, dos objetivos de utilização
da previsão pela empresa.
Bibliografia
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