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Indústria de Provedores de Serviços Logísticos no Brasil:
Analisando Oferta e Demanda de Serviços Paulo Fernando Fleury, Ph.D. IntroduçãoA
indústria de Provedores de Serviços Logísticos
- PSLs no Brasil vem crescendo de forma acelerada nos últimos
anos. Entre 2000 e 2003, a receita total dos PSLs pulou de R$ 1,56 bilhões
para R$ 6,02 bilhões, em termos nominais, o que corresponde a
um crescimento médio de 57% ao ano, ou 286% em três anos.
Como conseqüência, a receita média dos PSLs saltou
de R$ 16 milhões para R$ 53 milhões, o equivalente a um
crescimento médio anual de 49%, ou de 231% em três anos.
Por outro lado, o número de PSLs cadastrados como operadores
logísticos, cresceu apenas 16% no período, ou 5% ao ano,
em média. O desenvolvimento desta indústria no Brasil parece ser um fenômeno ancorado em bases sólidas. São vários os indícios neste sentido. Recente pesquisa junto a uma amostra de 93 empresas industriais brasileiras, pertencentes ao conjunto das 500 maiores, indicou que 45% pretendem aumentar, 48% manter, e apenas 7% reduzir a participação dos PSLs no total de suas despesas logísticas. Por outro lado 81% destas mesmas empresas se dizem satisfeitas ou muito satisfeitas com a decisão de contratação de PSLs. Este é um percentual bastante elevado, que se encontra em um patamar equivalente a de países com tradição em terceirização logística muito maior do que a nossa. Apenas como exemplo vale ressaltar que o percentual de satisfeitos ou muito satisfeitos com a decisão de terceirização logística é de 89% na América do Norte, 81% na Europa e 89% na Ásia. Para melhor
entender a dinâmica desta indústria no país este
artigo se propõe analisar os perfis de oferta e demanda, envolvendo
tipos de serviço, setores industriais envolvidos, e tecnologias
de informação utilizadas. Tipos de serviços: comparação entre oferta e demandaA
análise do portfólio de serviços oferecidos pelos
PSLs ao mercado brasileiro revela convergências e desencontros
quando confrontados com as necessidades e prioridades de seus atuais
e potenciais clientes.
A figura acima apresenta o percentual de PSLs que oferecem um determinado tipo de serviço. O exame da figura mostra a existência de 15 diferentes tipos de serviços ofertados por mais da metade dos PSLs brasileiros. Nove dentre os 15 são oferecidos por 90% ou mais dos provedores. Destes, se destacam as atividades de armazenagem, controle de estoques, e transportes de distribuição e transferência, ofertados por quase todos os provedores, e que compõem o núcleo central da gestão integrada da logística. Dentre os itens com menor índice de oferta se destacam atividades mais sofisticadas como milk run, JIT, gerenciamento intermodal, logística reversa e montagem de kits. Chama atenção o fato de 92% dos PSLs ofertarem o serviço de desenvolvimento de projetos e soluções, uma das atividades mais sofisticadas dentro do portfólio de serviços logísticos e ainda muito pouco terceirizado no Brasil. Uma comparação
com alguns indicadores obtidos junto às 500 maiores, mostra fortes
indícios de que existem claros descompassos entre oferta e demanda,
ou seja, a oferta de serviços parece ser excessiva quando comparada
com os requisitos e necessidades dos embarcadores. Perguntados sobre
a importância relativa de 13 diferentes critérios utilizados
para a seleção de PSLs, os executivos de logística
consideraram a variedade de serviços oferecidos o menos importante
de todos, com uma pontuação de 2,8 numa escala de 1 a
5 conforme pode ser observado na figura abaixo. Entre os três
critérios considerados mais importantes, destacam-se o preço,
a experiência anterior na atividade a ser terceirizada, e a qualidade
técnica do quadro de pessoal do PSL. Estes dados estão
a indicar que os embarcadores estão buscando provedores focados
e experientes, ao invés de fornecedores que ofereçam uma
ampla gama de serviços.
Um exame
mais detalhado de algumas atividades ofertadas é ainda mais revelador
do descompasso entre oferta e demanda. Uma outra
maneira de comparar oferta e demanda é examinar sua evolução
ao longo do tempo. A figura a seguir mostra a evolução
da demanda por certos serviços num período de 5 anos,
que vai de 1998 a 2003.
O exame da figura acima indica de forma clara que as atividades que mais tem crescido em termos de demanda são as mais sofisticadas, tais como, desenvolvimento de projetos, gestão de estoques, montagem de kits e milk run. É importante lembrar que embora estas atividades sejam as de maior taxa de crescimento, ainda possuem os mais baixos índices de terceirização, no conjunto de todas as atividades terceirizadas. O exemplo mais marcante é o desenvolvimento de projetos, que embora tenha crescido 335%, é terceirizado por apenas 29% das empresas, assim mesmo de forma parcial. O fato de que 92% dos PSLs ofertam este serviço está a indicar uma antecipação da oferta em relação a demanda. Quando
se examina a evolução da oferta de serviços pelos
PSLs, se verifica que as atividades que mais tem crescido são
também as mais sofisticadas, tais como a logística reversa,
serviços JIT, montagem de kits e gerenciamento intermodal, como
mostram os dados da figura a seguir.
A comparação da evolução da oferta, com a evolução da demanda, indica convergências e divergências. A montagem de kits e o gerenciamento intermodal são classes de serviços com crescimentos relevantes tanto de demanda quanto de oferta. Por outro lado, a armazenagem e o controle de estoques tiveram forte crescimento da demanda, mas praticamente nenhum crescimento da oferta, conseqüência do fato de que estes serviços já eram há bastante tempo oferecidos pela quase totalidade dos PSLs. Examinando
o futuro próximo, e levando em consideração o percentual
de empresas que pretendem terceirizar ou aumentar o grau de terceirização
de determinadas atividades nos próximos dois anos, verifica-se
as maiores oportunidades para os operadores logísticos, no que
diz respeito aos serviços a serem oferecidos. A tabela a seguir
apresenta a lista das atividades que representam as maiores perspectivas
de crescimento da terceirização nos próximos dois
anos.
Verifica-se
pela análise da tabela acima que das quatro atividades com maiores
oportunidades de crescimento para os PSLs, três são atividades
sofisticadas e uma intermediária, ou seja a atividade de armazenagem
que apresenta a maior perspectiva de crescimento nos próximos
dois anos.
Gastos totais com Logística e gastos com PSLs das 500 maiores empresas industriais agrupadas por setor (em R$ bilhões)
A análise
da tabela acima revela algumas informações interessantes.
O setor de química e petroquímica responde, sozinho, por
43% dos gastos logísticos e 41% dos gastos com provedores de
serviços logísticos. Além disso, é o setor
que tem o maior número de PSLs trabalhando para ele, ou seja,
um em cada 3 PSLs presta serviço para alguma empresa do setor.
Em conjunto os setores químico e petroquímico, alimentício
e automotivo são responsáveis por 77% do total das despesas
logísticas e 76% dos gastos com provedores de serviços
logísticos. Estes dados estão a indicar uma forte concentração
da demanda por serviços logísticos nestes 3 setores. Segundo
a literatura internacional, uma das mais importantes contribuições
dos PSLs, é a capacidade de aportar modernas ferramentas de TI
voltadas para o aperfeiçoamento das operações de
seus clientes. De fato em países mais desenvolvidos na Europa
e na América do Norte a capacitação em soluções
de TI é considerada um dos principais requisitos para um PSL
se manter competitivo no mercado. No caso do Brasil, o quadro parece
ser bastante diferente. A grande maioria das empresas não enxerga
o PSL como fonte de capacitação em tecnologia de informação.
Perguntados sobre o papel dos PSLs em relação a TI, 75%
das empresas responderam que os vêem como usuários, 20%
como implementadores, e apenas 12% como desenvolvedores de tecnologia
de informação. Como conseqüência, apenas 30%
dos embarcadores tem como um dos motivadores para a contratação
de PSL o objetivo de melhorar a utilização de TI. Importante
destacar que 85% dos embarcadores tem como motivador a redução
de custos.
A baixa expectativa em relação ao PSL no que diz respeito à melhor utilização de TI parece se justificar pela pequena contribuição que tem sido dada ao longo do tempo. A tabela anterior mostra o percentual de empresas que utilizam determinadas TIs, assim como de quem é a propriedade / licença das tecnologias utilizadas. Chama atenção, antes de tudo, o grau relativamente modesto de utilização de TI voltada para a logística. Dentre as ferramentas de transporte, o rastreamento de veículos é a mais utilizada, com um percentual de apenas 60%. Ferramentas de roteirização e de auditoria de frete são utilizadas por pouco mais da metade das empresas pesquisadas. O uso de ferramentas voltadas para a gestão de armazenagem também deixa a desejar. Tecnologia de rádio freqüência é utilizada por 44% das empresas, separação / picking por 54%, código de barras por 56% e endereçamento por 63%. Verifica-se apenas duas exceções ao limitado uso de TI voltada para logística: sistemas de processamento de pedidos e sistemas ERP, que são utilizados por 96% e 81% das empresas, respectivamente. Conclusão Este quadro
está a indicar claras oportunidades de implementação
de soluções de TI nos embarcadores. Estas oportunidades
poderão ser capturadas pelos PSLs no futuro, desde que estejam
atentos e preparados para tanto. No entanto, os dados da tabela anterior
indicam que até o presente momento estas oportunidades têem
sido pouco exploradas por eles. Basta examinar o que vem acontecendo
com as soluções voltadas para atividades de armazenagem.
Nos 62% dos casos onde se utilizam soluções de TI para
endereçamento, em apenas 13% das situações a propriedade
/ licença da tecnologia pertence ao PSL. Situação
semelhante ocorre para os casos de rádio frequência, código
de barras, e separação / picking. Nas aplicações
em transporte a situação é um pouco diferente.
Embora nos casos de auditoria de fretes e programação
de embarques o quadro anterior se repita, o mesmo não acontece
para a roteirização e rastreamento de veículos,
onde a participação dos PSLs é superior a dos embarcadores. Após uma fase de desenvolvimento e rápido crescimento, a indústria de provedores de serviços logísticos no Brasil parece estar evoluindo para uma fase de consolidação. Esta evolução costuma ter importantes implicações sobre a dinâmica do mercado. Clientes se tornam mais exigentes e seletivos, PSLs buscam foco e segmentação do mercado, margens tendem a ficar mais apertadas, e aumentos de produtividade tornam-se uma necessidade. Os dados da pesquisa, mostrados anteriormente, indicam claras necessidades de adaptação das estratégias comerciais utilizadas atualmente pelos PSLs. Existe um claro descompasso entre oferta e demanda por serviços.
Tudo isto
está a indicar um ambiente de ameaças e oportunidades
para os provedores de serviços logísticos atuando no Brasil.
Aqueles que conseguirem entender as novas exigências e estiverem
dispostos a investir nas mudanças aumentarão sua chance
de sobrevivência e crescimento. Os que se mantiveram estáticos
correrão sérios riscos de serem atropelados pela dinâmica
do mercado.
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