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O modal ferroviário é naturalmente vocacionado para o transporte de cargas de baixo valor agregado, para fluxos concentrados (em termos de origens e destinos) e para grandes distâncias. Esta vocação pode ser percebida na representatividade, medida em tonelada quilômetro útil, deste modal na matriz de transporte de diversos países de dimensões continentais (e.g. China, 37%, EUA 44%, Rússia 60%¹), bem como nos tipos de produtos típicamente transportados por este modal: minério de ferro, produtos siderúrgicos, produtos agrícolas, carvão e fertilizantes, entre outros. No Brasil, este modal de transporte nunca alcançou a representatividade obtida em outros países de grande extensão territorial. A sua participação na produção de transporte no país, medida pela tonelada quilômetro útil, variou, nas décadas de 80 e 90, entre aproximadamente 20% e 23%. Este grau de utilização para o transporte de carga coloca o Brasil na companhia de diversos países europeus, como França e Alemanha que possuem uma extensão territorial significativamente menor que a nossa. Adicionalmente, a participação do transporte ferroviário de cargas no Brasil têm sido restrita ao segmento de curtas distâncias, em que as vantagens dos custos e serviços ferroviários não são significativas. É interessante ressaltar que para longas distâncias a participação do modal ferroviário é a menor dentre todos os modais de transporte no Brasil. O presente artigo tem como objetivo principal avaliar o que vêm acontecendo neste subsetor do transporte de cargas no Brasil, a partir do processo de privatização da rede ferroviária brasileira ocorrida entre os anos de 1996 e 1999. Algumas perguntas a serem respondidas: 1) os clientes (embarcadores) têm motivos para considerar que a opção pelo transporte de cargas ferroviário vêm se tornando mais atraente ao longo dos últimos anos? 2) as empresas que obtiveram as concessões no processo de privatização vêm obtendo melhorias em seus resultados financeiros e operacionais ao longo dos últimos anos? 3) o processo de privatização vêm obtendo sucesso naquilo que acredita-se ser o seu objetivo principal: a melhoria na eficiência do sistema de transporte ferroviário, viabilizando-se uma alteração nas distorções da matriz de transportes brasileira? Neste artigo
apresenta-se inicialmente um breve histórico da operação
das ferrovias no Brasil, seguido das características do sistema
antes da privatização. Posteriormente apresenta-se o processo
de privatização e são feitas análises da evolução
do desempenho das ferrovias privatizadas, segundo a perspectiva de usuários,
prestadores de serviço e governo. Por fim, são resumidas
as análises feitas na etapa anterior e são apontados os
principais obstáculos para o crescimento e as tendências
para o setor. A segunda fase histórica pode ser entendida como a fase da nacionalização gradual das ferrovias brasileiras, processo este que iniciou-se no século passado e que teve como marcos a constituição da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) pela lei no. 3.115 de 1957 e a criação da Ferrovia Paulista S.A. (FEPASA) pela lei estadual no. 10.410 de 1971. Por fim, a terceira fase é aquela em que "devolve-se", através de processo de arrendamento por 30 anos, a malha e a operação ferroviária para as mãos dos investidores privados. Esta fase teve como prenúncio a inclusão, em 1992, da RFFSA no programa nacional de desestatização e teve como marco fundamental a Lei das Concessões de 1995 (8.987/95). Paralelamente à estrutura ferroviária privatizada, nasceu a Ferronorte, uma concessão de 90 anos outorgada em 1989 e com início de operação no ano de 1999. As estatísticas relativas ao desempenho da Ferronorte são ainda muito recentes e não serão, por causa disto, analisadas neste estudo. Para um maior
aprofundamento no histórico das ferrovias no Brasil recomenda-se
a leitura dos artigos de Castro e Esposito (1998), Marques e Robles (1998),
Velasco, Lima e Souza (1999) e Lima e Pasin (1999). Estas referências
estão listadas na bibliografia deste artigo. As Características do Sistema Antes da Privatização O sistema ferroviário brasileiro antes da privatização era composto por quatro redes ferroviárias, controladas e operadas por três empresas:
É interessante ressaltar que as ferrovias EFVM e EFC eram, e continuam sendo, ferrovias majoritariamente dedicadas ao transporte de minério de ferro da Cia. Vale do Rio Doce. O nível dos investimentos federais em conservação, manutenção e ampliação do sistema ferroviário decresceu sobremaneira ao longo da década de 80, resultando em uma acentuada degradação da eficiência operacional e qualidade dos serviços oferecidos na fase pré-privatização. A herança
deixada para as empresas privadas após o processo de desestatização
era, portanto, de uma rede com baixa integração intramodal
e intermodal, pequena extensão geográfica, baixa produtividade
(com exceção da EFVM e a EFC) e de pequenas distâncias
médias percorridas - avaliadas em cerca de 590 km na média. O Processo de Privatização O processo de privatização da principal malha de propriedade do governo, a RFFSA, foi feito através de um processo de leilão com arrendamento dos ativos operacionais e contrato de concessão firmado com o governo brasileiro. No modelo adotado, a empresa vencedora responsabiliza-se pela infra-estrutura, operação, controle de tráfego, marketing e finanças da malha. A rede federal foi subdivida em 6 malhas - MRS, CFN, FSA, FCA, Novoeste e Tereza Cristina. A privatização da FEPASA, seguiu o mesmo modelo, com o controle dos ativos operacionais e da operação sendo ofertados a uma única empresa. As demais malhas ferroviárias - EFVM e EFC - foram sempre controladas pela Cia. Vale do Rio Doce, e passaram as mãos da iniciativa privada a partir da privatização desta empresa. É
interessante ressaltar que a opção adotada de segmentar
a rede ferroviária em diversas malhas regionais implica na necessidade
de regular-se adequadamente os direitos de passagem e de tráfego
mútuo entre as concessionárias, visando, desta forma, atingir
a eficiência almejada para o sistema ferroviário como um
todo e não de suas sub-partes. A Evolução do Desempenho Após a Privatização A evolução do desempenho das ferrovias privatizadas pode ser analisada, de forma simplificada, a partir de três diferentes óticas: 1) a do usuário, que busca a redução dos preços e a melhoria no nível de serviço oferecido; 2) a do prestador de serviços, que busca a saúde financeira da empresa e a remuneração dos seus acionistas e 3) a do governo que visa melhorias sociais e econômicas ao país a partir de uma maior eficiência de seu sistema de transportes. É
interessante ressaltar que os objetivos acima indicados devem, em um cenário
ótimo, ocorrer simultânemente, o que neste caso poderia ser
entendido como o sucesso do processo de privatização. A Análise Sob a Ótica dos Usuários do Serviço A avaliação de desempenho de usuários de determinado serviço pode ser medida através de indicadores genéricos como preço, qualidade, velocidade, consistência e desempenho. Para efeito deste estudo estará sendo analisada a ótica dos usuários do serviço de transporte ferroviário de forma simplificada, a partir dos seguintes indicadores disponibilizados pelo Ministério dos Transportes: produto médio, velocidade média comercial e índice de acidentes.
Considerando-se que a inflação acumulada, medida pela TR, foi de 27,7% ao longo deste período, observa-se uma redução da receita média por produção de transporte em seis das oito concessões analisadas (75%). Esta redução pode indicar tanto uma possível redução no frete médio da maioria das empresas concessionárias, como também uma maior participação de produtos de menor valor agregado no mix de produtos transportados por estas empresas. Verifica-se,
adicionalmente, que a receita média por milhares de TKU das empresas
brasileiras - U$10,4 ² - está em um patamar ligeiramente
inferior à do mercado dos EUA (U$14,1). Neste mercado, porém,
transporta-se um percentual significativo de produtos de maior valor
agregado - por exemplo: 70% dos automóveis produzidos nos EUA
são transportados por trem - justificando uma maior receita média
por TKU. ² Excluindo-se as empresas com fluxo cativo da Vale do Rio Doce: EFC e EFVM
³ Os valores apresentados para CFN são entre os anos de 1998 (início da operação privada) e 2000
A Análise Sob a Ótica dos Prestadores de Serviço A avaliação de desempenho de empresas prestadoras de serviço pode ser analisada, principalmente, pelos seus principais indicadores financeiros como retorno sobre ativo (ROA), retorno sobre o patrimônio (ROE) ou valor econômico adicionado (EVA). Para efeito deste estudo será analisado apenas o desempenho operacional das ferrovias. Este indicador será medido através da margem bruta das concessionárias, calculada pela seguinte fórmula: Margem Bruta = (receita operacional líquida - despesa operacional) / receita operacional líquida. As margens
brutas das concessionárias no ano de 2000 são apresentadas
na figura abaixo:
Conforme pode ser verificado na figura 4 acima, nove das dez empresas avaliadas apresentaram margens brutas positivas no ano de 2000. É interessante também ressaltar que no ano de 1997, 50% das empresas possuiam despesas operacionais maiores que as receitas. No ano de 2000 este índice caiu para 10% (apenas uma empresa - CFN). Uma vez que
a margem bruta é, teóricamente, função da
eficiência operacional da empresa, realizou-se uma análise
para verificar a correlação entre estes dois índices.
Para efeito de simplificação, a medida adotada como representativa
da eficiência operacional foi a de receita por empregado. O resultado
para o ano de 1999 é apresentado a seguir
Pode-se perceber
na Figura 5 uma forte tendência de aumento da margem bruta das empresas,
na medida que o faturamento por empregado aumenta. Esta constatação
ressalta os resultados obtidos a partir de uma gestão orientada
para o aumento da eficiência operacional. A empresa com a maior
margem bruta - Vitória-Minas com 64% em 1999 - é também
aquela com maior receita por empregado: R$250.000 por ano. A análise sob a ótica do governo Será considerado, para efeito deste estudo, a missão do governo como sendo a de promover a eficiência do setor de transportes, visando impactos positivos em questões como segurança, meio ambiente e energia, movimentação e crescimento econômico. Serão abordadas, neste item, as questões de movimentação (a partir do indicador de produção de transporte), segurança operacional e meio ambiente (a partir do indicador de acidentes). Para efeito de avaliação segundo a ótica governamental, os resultados obtidos nestes dois indicadores são comparados com as metas fixadas pelo governo. Em um contexto de promoção de eficiência, a questão do desbalanceamento da matriz de transporte, citado anteriormente neste artigo, deve ser necessáriamente abordada. O total da produção de transporte ferroviário no Brasil é ainda muito baixo quando comparado com o seu potencial, verificado a partir dos grandes volumes de carga transportados, os baixos quocientes valor / frete das mercadorias, bem como as grandes distâncias transportadas. Visando o
aumento da participação deste modal no transporte para o
qual ele é vocacionado, foram definidas, pelo governo, metas de
produção de transporte para as empresas vencedoras do leilão
de concessão. O cumprimento
destas metas, ainda têm sido restrito a menos da metade das sete
concessionárias com monitoramento deste item. No ano de 2000, apenas
3 delas cumpriram a meta (ALL, Ferroban A evolução
da produção de transporte ferroviário em milhões
de TKU, a partir de 1996, está indicada no gráfico abaixo:
O crescimento de 20,63% entre os anos de 1996 e 2000 é ligeiramente superior ao crescimento da produção de transporte do país neste período, que foi de 19,96%. Percebe-se, portanto, um crescimento, ainda tímido, na participação relativa do transporte ferroviário na matriz de transportes brasileira. Duas outras questões também importantes, sob a ótica governamental, são aquelas da segurança operacional e do meio ambiente. Uma boa maneira de se medir estas questões é através do atingimento das metas de redução nos índices de acidentes definidas pelo governo. Com relação
ao ano de 2000, estas metas foram atingidas por apenas quatro das sete
concessionárias monitoradas (57%), indicando que ainda existe necessidade
de melhoria nesta questão para 43% das empresas. A partir dos números apresentados neste artigo, pode-se realizar uma série de observações sobre a evolução do setor após quatro anos do processo de privatização:
Os números apresentados neste documento indicam, ainda que de forma tímida, um avanço geral no desempenho do setor ferroviário pós-privatização. Com relação às perguntas que buscavam serem respondidas, pode-se concluir o seguinte:
Existem alguns acontecimentos recentes que indicam uma tendência de melhoria do quadro geral, a partir de uma melhor conectividade intramodal e intermodal. Dentre estes acontecimentos é interessante ressaltar os seguintes:
CASTRO, N.; EPOSITO, J. R. Infra-estrutura: Perspectivas de Reorganização - subsetor de infra-estrutura ferroviária. IPEA / BNDES, 1998. LIMA, E. T.; PASIN, J. A. B. Regulação no Brasil: Colocando a Competitividade nos Trilhos. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v.6, n.12, p.169-194, Dez 1999. MARQUES, S. A.; Robles L.T. Reestruturação Financeira e Institucional do Subsetor Ferroviário. IPEA, 1998. MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES. Relatório Trimestral de Acompanhamento das Concessões Ferroviárias. 3o trimestre 1998, Abril a Junho 2000, Abril a Junho 2001. www.aar.org; Association of American Railroads. Estatísticas capturadas em 12/04/2002. VELASCO, L. O. M; LIMA, O.T.; SOUZA, R. M. A. T. Ferrovias: Privatização e Regulação. Informe infra-estrutura BNDES, 1998.
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