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Pesquisa Benchmark - Serviço ao Cliente
- 2001
A qualidade do serviço de entrega de bens de consumo
da indústria aos varejistas (supermercados): Apresentação
dos principais resultados
Cesar
Lavalle
Introdução
A base de
dados acumulados nas últimas sete edições da Pesquisa
Benchmark - Serviço ao Cliente possibilita uma análise consistente
sobre o serviço de distribuição física oferecido
pela indústria de bens de consumo ao comércio supermercadista.
Este artigo
tem como objetivo apresentar a evolução da importância
do serviço de distribuição no processo de decisão
de compra do comércio supermercadista, bem como do nível
de satisfação do varejo com o desempenho das empresas industriais.
Ao final,
é feita uma breve avaliação sobre as oportunidades
de diferenciação no mercado. As análises estão
baseadas em pesquisa periódica realizada pelo Centro de Estudos
em Logística - COPPEAD/UFRJ, entre 1994 e 2001.
(1)
Solicitou-se aos entrevistados que distribuíssem 100 pontos entre
as quatro variáveis de decisão de compra consideradas (produto,
preço, serviço ao cliente, promoção e propaganda).
Uma maior pontuação indica maior relevância
Análise
Evolutiva dos Resultados
Quanto a Evolução da Importância do Serviço
ao Cliente no Processo de Decisão de Compras
Ao longo destes anos percebe-se uma clara influência do desempenho
da economia brasileira (ver Tabela 2) no comportamento dos agentes na
cadeia de suprimento de bens de consumo. A Tabela 1 e o Gráfico
1 apresenta a evolução do processo de decisão de
compra do comércio no período de 1994 a 2001.
Observa-se
que o serviço ao cliente se destaca como a variável
de decisão de compra que ganhou maior peso relativo na medida em
que a economia se estabilizou a partir de 1994, quando as taxas de inflação
apresentaram drástica redução - dos patamares hiperinflacionários
aos níveis moderados atuais. Neste período, o serviço
ao cliente passou de 14,4% para 20,1% em termos de importância
relativa, ou seja, apresentou um crescimento significativo de 40% entre
1994 e 2001.
Gráfico
1 - Evolução da Importância das Variáveis
de Marketing na Decisão de Compra do Comércio; Mercados:
São Paulo e Rio de Janeiro
* as previsões para 2003 representam
as previsões dos entrevistados
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Tabela
1 - Evolução da Importância das Variáveis
e Marketing na Decisão de Compra do Comércio; Mercados:
São Paulo e Rio de Janeiro
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Até
1998 observa-se um período de crescimento do PIB, aumento do rendimento
médio do consumidor e uma desvalorização cambial
nos mesmos níveis do aumento da inflação, segundo
a Tabela 2. Neste quadro macroeconômico, o preço que em 1994
era a principal variável de decisão de compra do comércio,
perdera espaço para o produto e o serviço ao cliente. Os
movimentos especulativos, que fundamentavam o comportamento dos agentes
econômicos ao longo da cadeia de suprimento, deram lugar a demandas
baseadas em melhor nível de serviço e qualidade e variedade
dos produtos oferecidos. Ou seja, as iniciativas voltadas aos ganhos financeiros
foram substituídas por outras que visaram a rentabilidade dos negócios.
Neste período o preço perdeu cerca de 15% de sua importância
(de 38,5% para 32,9%) enquanto o produto cresceu em 17% (de 30,8% para
36,0 %) e o serviço ao cliente em 14% (de 14,4% para 16,4%).
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Informações
Gerais
A pesquisa
Benchmark Serviço ao Cliente, conduzida periodicamente
desde 1994 pelo Centro de Estudos em Logística, tem contado
com o patrocínio de empresas industriais, líderes
em seus respectivos setores de atuação. O escopo de
pesquisa considera cerca de 600 entrevistas, efetuadas em cinco
capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba,
Belo Horizonte e Recife), considerando quatro categorias de produtos:
alimentos perecíveis, alimentos não perecíveis,
papel, e higiene e limpeza.
A metodologia avalia 9 dimensões (operacionalizadas através
de seus respectivos atributos de serviço de distribuição):
Disponibilidade de Produto, Tempo de Ciclo do Pedido, Consistência
do Prazo de Entrega, Freqüência de Entrega, Flexibilidade
do Sistema de Entrega, Sistema de Remediação de Falhas,
Sistema de Informação de Apoio, Apoio na Entrega Física
e Apoio Pós-Entrega.
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Empresas
Patrocinadoras
Belfam
Bombril
Ceval
Coca-Cola
Unilever - HPC
Unilever - BESTFOODS
J. Macêdo
Johnson&Johnson
Kraft
Kibon
Kimberley-Clark
Melhoramentos
Nestlé
Perdigão
Reckitt Benckiser
Sadia
Santher
Santista Alimentos
União
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Em
período subseqüente, a partir de 1999, observa-se um discreto
arrefecimento da atividade econômica, caracterizada pelas baixas taxas
de crescimento do PIB, forte redução do rendimento médio
do consumidor, níveis elevados de desvalorização cambial
e inflação crescente. Observa-se que a forte perda de poder
aquisitivo do consumidor permeou o comportamento da cadeia de suprimento,
notadamente entre a indústria e o comércio, passando a dar
crescente importância ao preço e principalmente ao serviço
ao cliente em detrimento ao produto.
O Gráfico 1 mostra que, entre 1999 e 2001, o comércio deu
importância crescente ao preço (de 31,8% para 32,6%),
voltando a ser a principal variável de decisão de compra.
Observa-se que a queda do produto foi expressiva, perdendo cerca
de 14% de importância relativa no período considerado (de 36,9%
para 31,6%). Por outro lado, o peso do serviço ao cliente
teve crescimento significativo de aproximadamente 19%, ou seja, de 16,9%
para 20,1%. E segundo as previsões para 2003, o serviço
ao cliente deverá ganhar ainda mais espaço com relação
as demais variáveis de decisão de compra.

Tabela
2 - Evolução das taxas de crescimento do PIB brasileiro,
taxa cambial, rendimento médio do pessoal ocupado
(2)
e do INPC
* estimativa
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(2)
Fonte: Conjuntura Econômica, vol.55, nº10, outubro 2001
É por conta destas previsões que as indústrias líderes
em seus setores deverão investir nos serviços logísticos
oferecidos para fortalecer suas posições em um mercado cada
vez mais competitivo (ver quadro a seguir), onde as margens já
se encontram reduzidas e os consumidores não têm mais capacidade
de absorver aumentos de preço, sem que estes não impliquem
em redução de consumo.
Se
por um lado, os resultados da pesquisa demonstram aderência
com relação ao desempenho da economia, cabe também
analisa-los a luz do conhecimento acumulado sobre as organizações
e o comportamento do mercado. Atualmente, existe uma aceitação
geral de que a diferenciação está na raiz de
estratégias vencedoras, baseada na constatação
de que a não ser que produtos concorrentes possam ser diferenciados,
existe grande possibilidade de que o mercado os percebam como "commodities",
fazendo do preço o cerne da competição, que por
seu turno pode levar a rentabilidade decrescente. Também é
de aceitação geral que a melhor forma de contornar esta
"armadilha" é a incorporação de serviços
aos produtos oferecidos como forma de agregação de valor
para que o mercado os diferenciem frente à concorrência.
Esta situação se agrava se considerarmos que no mercado
de bens de consumo existe uma convergência tecnológica,
que dificulta a diferenciação com base nas características
de produto.
A "guerra de preços" pode ser evitada por meio de
serviços logísticos que simultaneamente podem promover
melhorias em termos de nível de serviço e redução
de custos na cadeia de suprimento. O mercado varejista apresenta-se
cada vez mais perceptível aos benefícios advindos da
maior confiabilidade e capacidade de resposta de seus fornecedores,
que se refletem em racionalização de custos operacionais
em razão da melhor utilização da capacidade instalada
e redução dos níveis de estoque. Cabe lembrar
que, atualmente, os acionistas têm no retorno sobre ativos um
dos indicadores de performance mais relevantes na avaliação
de suas empresas.
Se considerarmos que todos os custos irão, de uma forma ou
de outra, se propagar ao longo da cadeia de suprimento, em última
instância estes se refletirão no preço pago pelo
consumidor final. As empresas de vanguarda reconhecem que a base da
competição se deslocou de empresa versus empresa para
cadeia de suprimento versus cadeia de suprimento.
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Quanto ao Percentual de Clientes Insatisfeitos com o Desempenho da Indústria
A Tabela 3 e Tabela 4, obtidas a partir dos resultados da pesquisa
realizada em São Paulo e Rio de Janeiro, apresentam o percentual
de varejistas insatisfeitos com seus fornecedores em três das principais
dimensões do serviço de distribuição física
(ver Tabela 5). A Tabela 3 refere-se à insatisfação
com os fornecedores de desempenho equivalente à média do
mercado, enquanto a Tabela 4 apresenta o percentual de varejistas insatisfeitos
com seus melhores fornecedores.
Tabela
3 - Evolução do Percentual de Clientes Insatisfeitos
com a Prática de Mercado versus Dimensões do Serviço
de Distribuição Física: Mercados de São
Paulo e Rio de Janeiro
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Tabela
4 - Evolução do Percentual de Clientes Insatisfeitos
com a Melhor Prática versus Dimensões do Serviço
de Distribuição Física: Mercados de São
Paulo e Rio de Janeiro
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Via
de regra, os resultados indicam que os varejistas diferenciam seus melhores
fornecedores daqueles com o desempenho médio da indústria,
mesmo considerando que os percentuais de insatisfeitos ainda se encontram
em níveis muito elevados. Em ambos os casos, verifica-se uma redução
significativa de varejistas insatisfeitos na dimensão consistência
do prazo de entrega, de 2000 a 2001, que, no entanto, encontram-se
ainda em níveis muito elevados. Por outro lado, o Tempo de Ciclo
do Pedido apresenta uma redução do percentual de varejistas
insatisfeitos com os fornecedores com desempenho equivalente a prática
de mercado, enquanto o mesmo não ocorreu com relação
as melhores práticas.
Ao analisar a disponibilidade de produto observa-se uma piora generalizada
de desempenho das indústrias, sendo que as melhores práticas
apresentam o maior percentual de insatisfeitos desde o início da
pesquisa em 1994. É importante ressaltar que a indústria
deve estar ciente que se trata da dimensão mais importante do serviço
ao cliente na percepção do comércio. Ou seja,
não ter produto disponível para a tirada de pedido ou aceitar
pedido mas não realizar a entrega pode ser visto como uma maneira
muito eficiente de encaminhar clientes aos concorrentes.
É interessante verificar que, com a exceção da dimensão
consistência do prazo de entrega, houve uma deterioração
significativa dos serviços prestados pelas melhores práticas
nas mais importantes dimensões do serviço ao cliente, se
considerarmos o número de varejistas insatisfeitos uma medida relevante
do desempenho percebido pelo comércio supermercadista. Estes resultados
se apresentam na contra-mão da análise feita anteriormente
com relação ao ambiente competitivo do setor.
Neste mesmo período os varejistas ficaram cada vez mais exigentes
com o desempenho da indústria. Se em 1994 era aceitável
entregar, em média, 87% do pedido confirmado, em 2001 o comércio
revela estar insatisfeito com um desempenho abaixo de 90%. No mesmo período,
o tempo máximo de atraso tolerado caiu de 3,8 dias para 1,8 dia.
Em termos de prazo de entrega a partir da tirada do pedido, a tolerância
foi reduzida, em média, de 4,2 dias em 1994, para 2,8 dias.
Tabela
5 - Evolução do Ranking das Dimensões que Compõem
o Serviço de Distribuição Física: Mercados
de São Paulo e Rio de Janeiro.
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Ao analisar a importância relativa das dimensões que consistem
o "pacote" de serviço de distribuição física
(ver Tabela 5), verifica-se que aquelas referentes ao tempo e espaço
são indicadas como as mais valorizadas pelo comércio ao
longo de todo o período pesquisado. Ou seja, entregar o produto
certo, no local certo e no momento acertado é condição
básica para o desenvolvimento de uma estratégia logística
de sucesso.
No entanto, cabe lembrar que as oportunidades de diferenciação
frente à concorrência podem ser obtidas através de
dimensões acessórias, como o Apoio na Entrega Física,
Sistema de Remediação de Falhas e Flexibilidade.
O importante é segmentar a base de clientes e oferecer serviços
diferenciados considerando suas necessidades vis a vis a rentabilidade
de cada segmento.
ANÁLISE DAS OPORTUNIDADES DE DIFERENCIAÇÃO COMPETITIVA
Nesta sessão estão relacionados, de forma sumarizada, os
principais resultados da pesquisa, buscando indicar, às empresas
industriais, as melhores oportunidades de ganho de competitividade através
do aperfeiçoamento do processo de distribuição física.
Esta análise é feita tomando como base tanto as empresas
com desempenho equivalente a prática de mercado, quanto
àquelas que se destacam por apresentarem as melhores práticas.
(3) A classificação das melhores oportunidades
de diferenciação foi obtida através da multiplicação
da importância normalizada de cada dimensão do serviço
de distribuição física pelo percentual de clientes
insatisfeitos, doravante chamado de indicador de insatisfação.
Quanto a Segmentação Considerando as Dimensões
de Serviço ao Cliente
O Gráfico 2 apresenta duas matrizes 2 X 2 com as dimensões
de serviço ao cliente alocadas aos quadrantes segundo o nível
de importância e o percentual de clientes insatisfeitos. As matrizes
2 X 2 resultantes possibilitam visualizar as principais oportunidades
de melhoria do serviço de distribuição física.
Ou seja, a idéia é identificar as dimensões mais
importantes com o maior número de insatisfeitos. Nesse sentido,
o quadrante superior direito aponta para as prováveis candidatas
para o estabelecimento de programas de melhorias que serão mais
valorizados do ponto de vista do varejista.

Gráfico 2 - Importância X Insatisfação
dos varejistas com as dimensões de serviço ao cliente.
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Observa-se,
portanto, que no caso das empresas com desempenho equivalente a prática
de mercado, as dimensões Consistência do Prazo de
Entrega, Sistema de Remediação de Falhas e Apoio
na Entrega Física consistem nas melhores oportunidades de diferenciação
frente à concorrência. No caso das melhores práticas
as oportunidades mais promissoras para alavancar a competitividade das
empresas são Apoio na Entrega Física, Sistema
de Remediação de Falhas e Sistema de Informação
de Apoio. Ou seja, estas dimensões representam a maneira mais
efetiva de fidelizar os clientes insatisfeitos.
Quanto a Segmentação Geográfica
É interessante observar que o nível de insatisfação
com o serviço de distribuição física prestado
pelas indústrias varia substancialmente com o mercado pesquisado.
A Tabela 6 indica que o Recife e Rio de Janeiro se destacam, nesta ordem,
como os mercados mais satisfeitos com o desempenho das indústrias,
enquanto São Paulo é o mercado mais insatisfeito.

Tabela 6 - Insatisfação dos varejistas
nas diferentes regiões (ano 2001)
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Verifica-se,
portanto, que existem oportunidades claras de posicionamento diferenciado
com relação à localização dos clientes.
Conclusão
Este artigo procurou demonstrar que o comércio supermercadista,
nos últimos anos, tem valorizado, cada vez mais, o serviço
de distribuição física oferecido pelas indústrias
de bens de consumo. Em última análise, verificou-se que
o serviço ao cliente tornou-se fator chave no processo de decisão
de compra do comércio.
Os resultados de pesquisa revelam que o mercado está em permanente
mudança e que o entendimento das necessidades do cliente é
fundamental para o desenvolvimento de uma estratégia de serviço
vencedora. Observa-se que o nível de exigência do comércio
é crescente, implicando na necessidade de reavaliações
periódicas dos níveis de serviços oferecidos pelas
indústrias para manter a satisfação dos clientes.
Como mensagem final, é importante realçar que o esforço
de pesquisa é fundamental para manter o negócio alinhado
às reais necessidades de mercado. É a partir do monitoramento
contínuo do ambiente competitivo que se pode identificar oportunidades
para melhor satisfazer ao cliente, antecipando e superando a concorrência.
Bibliografia
LA LONDE, B.J.; COOPER, M.C.; NOORDEWIER, T.G.: Customer service: a management
perspective. Oak Brook, Ill., Council of Logistics Management, 1988.
LAMBERT, D.M.; HARRINGTON, T.C. Establishing customer service strategies
within the marketing mix: more empirical evidence. Journal of Bussines
Logistics, 10(2), p. 44-60, 1989.
FLEURY, P.F., LAVALLE, C.R. Avaliação do serviço
de distribuição física: a relação entre
a indústria de bens de consumo e o comércio atacadista e
varejista. Gestão e Produção, vol. 4, nº 2,
agosto 1997.
BOWERSOX, D.J.; CLOSS, D.J. Logística Empresarial: o processo de
integração da cadeia de suprimento. Editora Atlas, 2001.
Pesquisa
desenvolvida pelo Centro de Estudos em Logística do COPPEAD - Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Os dados desta pesquisa são utilizados
para geração de informações para as indústrias
e para a comunidade acadêmica, através da elaboração
de artigos para congressos nacionais e internacionais. Publicações
podem ser encontradas na home page: www.cel.coppead.ufrj.br.
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