| |
|
GIS
: Definições e aplicações na logística
Paulo Nazário
Este artigo se propõe a abordar uma das tecnologias de informação
que cada vez mais está ao alcance de pequenas, médias e grandes empresas
brasileiras. Os Sistemas de Informação Geográfica (SIG), ou GIS, do inglês
Geographic Information Systems, têm apresentado um crescimento
grande nos EUA, em torno de 20% ao ano. No Brasil, apesar de não existirem
estatísticas específicas, alguns especialistas estimam que existe um crescimento
na ordem de 30% ao ano.
A melhor forma de entender o significado e a aplicabilidade de GIS é através
de um exemplo comum. Quem nunca viu um mapa fixado na parede demarcando
áreas de venda, ou então, com clientes representados por alfinetes coloridos?
Agora, as empresas com esta prática podem melhorar o processo de análise
dos clientes, bem como utilizar um instrumento mais adequado na formação
de zonas de vendas, isto sem mencionar as inúmeras aplicações que podem
ser executadas por GIS.
O tratamento das informações espaciais no passado era realizado basicamente
através da utilização de mapas em papel. Hoje em dia, existem softwares
que permitem o uso de tais informações para auxiliar na tomada de decisão.
Análises do tipo quantos e quais clientes são atendidos no raio de 150
Km são facilmente realizadas pela tecnologia GIS. Além disso, pode-se
fazer análises e gerar mapas temáticos utilizando mapas digitalizados
contendo rodovias, ferrovias e informações sobre dados georeferenciados,
como pode ser visto na figura 1. Sem mencionar a aplicação desta ferramenta
em problemas de localização, seja de pontos comerciais ou de fábricas.
No roteamento de veículos ela é fundamental, pois permite ao usuário visualizar
as rotas que foram geradas a partir de um algoritmo.
 |
| Figura
1 - Análise do escoamento da produção agrícola no centro-oeste |
Definição
Uma definição bastante comum de GIS encontrada na literatura relaciona esta
tecnologia com uma ferramenta que associa banco de dados a mapas digitalizados.
Conceitos mais amplos que este são apresentados hoje em dia. Um GIS completo
consiste em pelo menos cinco componentes: software, hardware,
dados geográficos, pessoal e organização. Partindo do princípio que o sistema
seja implementado na empresa, não basta apenas um software que trabalhe
com um banco de dados e mapas digitalizados, é importante que exista pessoal
qualificado, um objetivo no seu uso e interação com outras áreas dentro
da organização. Portanto, GIS é uma coleção de software, hardware,
dados geográficos e pessoal para facilitar o processo de tomada de decisão
que envolve o uso de informações georeferenciadas na organização.
Histórico
A idéia inicial de GIS nasceu na Suécia. Entretanto, o primeiro GIS
foi desenvolvido no Canadá em 1962, sendo denominado CGIS (Canada Geographic
Information Systems). Ele objetivava a realização de inventários de
terras em âmbito nacional, envolvendo diferentes aspectos sócio-econômicos
e ambientais. Só tornou-se totalmente aplicável em 1971.
Pacotes de GIS comerciais começaram a ser desenvolvidos nos anos 70, principalmente
nos EUA e experimentaram rápido crescimento nos anos 80. Inicialmente,
as empresas do governo eram os principais clientes destes produtos. No
Brasil não foi diferente, as principais aplicações foram nos setores de
energia e ambiental.
O mercado nos anos 90 foi caracterizado pela ampla aplicação no setor
privado. Nos EUA a propagação foi bastante intensa, visto que o governo
americano já se preocupava com o desenvolvimento da representação digital
das redes de estradas e zonas censitárias desde 1972, o que é fundamental
para o crescimento desta tecnologia. No Brasil como veremos adiante, a
dificuldade com as bases de dados é o principal fator que inibe a ampla
utilização da ferramenta GIS.
Áreas
de aplicação de GIS
As áreas de aplicação de GIS extrapolam o uso no marketing e na logística.
Estes sistemas surgiram em estudos ambientais e urbanos, sendo em seguida
utilizados nas áreas de energia, água e esgoto, saúde e em estudos populacionais.
Com isso, é importante ressaltar que dentro do geoprocessamento, as aplicações
citadas a seguir fazem parte de um grupo específico.
Devido a importância que os dados espaciais ocupam na atividade logística,
os GIS possibilitam inúmeras aplicações. A partir da utilização de dados
georeferenciados, pode-se executar diversas análises nas seguintes áreas:
- Apoio
ao Marketing - Nesta área o uso de GIS auxilia na identificação
do potencial de vendas das diferentes regiões. Isto fornece informação
para eventuais promoções em pontos menos nobres. Além disso, pode ser
realizada segmentação de mercado, pois se existirem dados disponíveis
dos clientes com suas respectivas necessidades (obtidas através de pesquisas),
pode-se estabelecer padrões de serviço diferenciados. A visão espacial
ajuda muito neste aspecto.
-
Geografia de mercado - localização de pontos comerciais
- Na atualidade, a tecnologia GIS é amplamente utilizada na geografia
de mercado, que tem no estudo de localização de pontos comerciais a
principal vertente. Esta abordagem possui um escopo diferenciado do
estudo de localização de fábricas e CD's. Na localização de fábricas
e CD's os custos com transportes e armazenagem têm um impacto muito
grande. Já na definição do melhor ponto comercial, questões como mão
da via, sinais de trânsito e outros aspectos mais urbanos são ressaltados.
 |
| Figura
2 - Resultado de um estudo de localização |
-
Localização de fábricas e CD's / Roteamento
- Neste tipo de estudo, os GIS são utilizados como interface. A solução
destes problemas são obtidas através de algoritmos baseados em programação
matemática. Porém, a importância que a representação visual tem no sentido
de facilitar o entendimento de não especialistas é muito grande, como
pode ser vito na figura 2, que apresenta o resultado de um estudo de
localização, que determina o número de fábricas de uma empresa de bebidas,
bem como aloca estas fábricas aos distribuidores. Além disso, a ferramenta
GIS possibilita identificar problemas na resposta do modelo.
-
Análises de sistemas logísticos e o uso de SDSS - É importante
existir controle em sistemas logísticos já implementados. Isto pode
ser obtido através de GIS. Para distribuidores, por exemplo, pode-se
identificar várias anomalias (vide figura 3), tais como: desbalanceamento
das regiões de entrega, fluxos inadequados, má formação na consolidação,
entre outras.
 |
| Figura
2 - Resultado de um estudo de localização |
O
uso de Spatial Decision Support Systems (SDSS) tem aumentado significativamente
na logística. Estes sistemas podem ser definidos como de apoio à decisão
utilizando dados espaciais e são caracterizados pela conjunção de sistemas
especialistas com ferramentas GIS. Os softwares de localização
e de roteamento estão dentro desta classe. Além destes, podem ser incluídos
modelos de alocação, previsão de vendas, controle de frota e etc.
Como implementar um ambiente GIS?
É importante definir claramente a utilização de GIS na solução de
um problema na organização. Podemos identificar basicamente dois casos
na aplicação da ferramenta GIS: quando existe a contratação de uma empresa
especializada para a execução de um serviço específico ou quando a organização
opta por comprar um software e as bases de dados, implementando o GIS
com capacitação interna ou com apoio de consultorias.
A segunda alternativa está sendo mais explorada, visto que as organizações
estão descobrindo a abrangêngia da ferramenta, fazendo in-house
suas próprias análises e tomando suas próprias decisões. Esta escolha
depende principalmente do expertise que a empresa possui na área
e na capacidade de manter as bases de dados atualizadas. Conforme o mercado
vai se desenvolvendo, profissionais com experiência em GIS começam a aparecer.
Se a opção de implementar um GIS na empresa for escolhida, os responsáveis
pelo projeto devem analisar qual o software e quais as bases de
dados que são mais adequados para a aplicação desejada.
Deve-se também considerar a interação da área que trabalhe com GIS com
as outras áreas da organização. Isto é importante visto que em geral a
manutenção das bases de dados depende de vários setores. Se a comunicação
não funcionar bem, todo o projeto pode estar comprometido.
Softwares
No Brasil existe uma grande disponibilidade de softwares de GIS.
Eles vão desde os desktop mapping até softwares que possuem
algoritmos e são capazes de executar tarefas, tais como: roteamento, estudo
de localização, obtenção de matriz de distâncias, entre outras. Os desktop
mapping são mais baratos que os outros (custam menos que R$1000) e
são utilizados principalmente pelas áreas de serviço ao cliente, vendas
e marketing. Eles representam cerca de 50% das vendas dos softwares
de GIS no mercado brasileiro.
A predominância dos softwares de GIS é americana. Por outro lado,
empresas brasileiras vêm desenvolvendo seus produtos e ganhando participação
no mercado. Os principais softwares americanos possuem representantes
no Brasil. Estas empresas além de representar, são prestadoras de serviço,
fazendo consultoria, vendendo bases de dados e dando treinamento.
Para quem quiser saber um pouco mais sobre os principais softwares,
os sites de seus fabricantes encontram-se na tabela 1.
Tabela 1 - Lista de softwares
Estrutura atual de dados
Depois de ter visto a ampla disponibilidade de softwares no mercado.
Constata-se, por outro lado, que o uso mais intensivo de GIS no Brasil
ainda tem como limitante, na maioria das vezes, a escassez de bases de
dados confiáveis e atualizadas, tanto em relação a dados espaciais (mapas
digitalizados) quanto à dados demográficos e sócio-econômicos.
O principal responsável pela cartografia digital oficial e geração de
outras bases oficiais é o IBGE. Embora este órgão tenha um plano neste
sentido, tem encontrado dificuldades e a velocidade com que disponibiliza
as bases para a comunidade é bastante lenta. Existe atualmente uma política
de associar-se a iniciativa privada cedendo imagens raster e recebendo
em troca as bases vetorizadas, com as quais tem intenção de padronizar
e facilitar o seu acesso para todos os interessados.
Devido a falta de bases, o que tem se observado no mercado brasileiro
é o desenvolvimento de bases de dados por empresas que utilizam tecnologia
GIS, empresas prestadoras de serviço, prefeituras, governos estaduais
e universidades.
As empresas da iniciativa privada desenvolvem uma série de projetos isolados,
que têm por vezes o mesmo objetivo. Falta coordenação entre elas para
criarem bases conjuntamente.
Já as empresas prestadoras de serviço se vêem obrigadas a executar o trabalho
de mapeamento e digitalização para atender as necessidades dos clientes.
O mesmo ocorrendo com outros tipos de bases de dados, como perfis demográficos
e sócio-econômicos.
Nota-se também, que está havendo uma incrível prática por parte das prefeituras
de realizarem projetos utilizando o geoprocessamento. Estes projetos têm,
em geral, como um de seus pilares a preparação de uma base digitalizada
dos logradouros, bem como dos lotes pertencentes às quadras da localidade.
Isto tem ocorrido com bastante intensidade no interior de São Paulo.
O município do Rio de Janeiro já disponibilizou para a população a base
digitalizada da cidade em CD-ROM. Nela, estão contidas informações georeferenciadas
da cidade, como escolas municipais, corpo de bombeiros, pontos turísticos
e outras informações relacionadas aos logradouros da cidade. Neste produto,
o usuário pode inserir pontos, bem como criar mapas temáticos. O fato
negativo é que a prefeitura não disponibiliza a base bruta para que comunidade
possa desenvolver aplicações em ambiente GIS com outros softwares.
Existem outros inúmeros exemplos que demonstram a iniciativa isolada e
pouco coordenada no desenvolvimento de bases de dados. Isto traz, sem
dúvida, duplicação de esforços, resultando em maiores custos nos projetos.
Falta por parte do governo federal uma política que incentive, regulamente
e estabeleça regras e responsabilidades no que diz respeito à preparação
de bases de dados.
Novas tendências
O que podemos perceber como novas tendências no uso de GIS na logística
relaciona-se ao desenvolvimento de produtos que compartilham a tecnologia
GIS com bases de dados específicas, o uso da internet para veicular
mapas e disponibilizar informações para os clientes on-line e a
intensificação no uso de SDSS nas empresas.
O desenvolvimento de novos produtos visam facilitar a utilização de recursos
GIS na solução de vários problemas. Estes produtos são baratos e de fácil
acesso, e em geral disponobilizam um desktop mapping juntamente
com uma base de dados específica. Um exemplo deste tipo de produto foi
lançado recentemente em São Paulo.
O uso da internet para veicular mapas já é bastante comum nos EUA.
Esta opção é adotada porque tem um custo baixo e possibilita atender o
cliente de forma diferenciada.
Por fim, está sendo esperado um aumento significativo na utilização de
SDSS nas empresas. Isto é justificado pelo aumento do número de variáveis,
principalmente geográficas, consideradas nas análises. Com isso, as decisões
ficam cada vez mais complexas e a necessidade do uso de tal ferramenta
torna-se fundamental para a competitividade da empresa. Algumas organizações
já estão adotando os SDSS na formulação do planejamento estratégico.
Retorna
|