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Maria Fernanda Hijjar O desenvolvimento de um bom sistema de monitoramento de desempenho é fundamental para o gerenciamento de atividades logísticas. A mensuração de desempenho é uma das mais importantes ferramentas a serem utilizadas para verificar se os objetivos estabelecidos pela empresa estão sendo alcançados, auxiliando ainda na melhor aplicação dos recursos destinados à logística. A realização deste monitoramento torna-se ainda mais importante no atual cenário em que as atividades relacionadas à logística vêm sendo reconhecidas mundialmente como de elevada importância para geração de valor para o cliente (ver Figura 1).
Fontes: *Panorama Logístico - Terceirização Logística no Brasil 2003 - CEL/COPPEAD ** Third-Party Logistics Study Results and Findings 2002; C. Jonh Langley Jr. Desde 1986, pesquisadores da Michigan State University desenvolveram uma série de levantamentos com o objetivo de identificar elementos comuns nas empresas bem sucedidas em suas atividades logísticas. Foi elaborado então um modelo de competência logística. Neste modelo, a existência na empresa de um sistema estruturado de mensuração de desempenho logístico foi indicado como uma das quatro competências necessárias para um desempenho logístico de classe mundial. O Modelo "World Class Logistic"
Figura 2 - Modelo "World Class Logistic" A primeira competência é o Posicionamento, ou seja, a forma pela qual a empresa compete, o tipo de serviço ofertado, o grupo de consumidores alvo e a sua comparação à oferta dos concorrentes. A segunda competência é a Integração, que lida com o que e como fazer para criar uma operação logística de excelência. A seguir vem a Agilidade que é a capacidade de reagir às mudanças das necessidades dos clientes de tal modo que estes não apenas se mantêm fiéis, mas também proporcionam oportunidades de crescimento. E por fim, a quarta competência é a Mensuração, competência que através de medidas de avaliação proporciona base para a realização de ajustes nas outras três competências logísticas (Posicionamento, Integração e Agilidade). A competência Mensuração será detalhada a seguir. A Mensuração de desempenho nas empresas de Classe Mundial Pesquisa realizada pelo grupo de Michigan evidenciou que as organizações com logística de classe mundial percebem a medição de desempenho como uma competência crítica e mostram maior proficiência que seus competidores nesta atividade. De acordo com o modelo "World Class Logistics", as medidas de desempenho ( Métricas ) empregadas pelas empresas de classe mundial pertencem a quatro áreas: (1) serviço ao cliente/qualidade , (2) custos , (3) produtividade e (4) gerenciamento de ativos . As diferentes Métricas propostas para um bom sistema de medição serão detalhadas a seguir, assim como exemplos de indicadores de desempenho apresentados por alguns dos principais autores na área de logística. Métrica (1): serviço ao cliente/qualidade Uma série de autores abordam a mensuração do serviço ao cliente, estabelecendo indicadores de desempenho importantes a serem monitorados. Frazelle (2001) considera que o melhor indicador para medir o serviço ao cliente é o "percentual do pedido perfeito" o qual, operacionalmente, é traduzido em indicadores de desempenho de cada uma das atividades logísticas relacionadas com o processamento dos pedidos, incluindo aspectos de disponibilidade, correção dos produtos entregues, cumprimento do prazo acordado, precisão no faturamento, documentação, embalagem correta, etc. Pisharodi e Langley (1990), por sua vez, definem a avaliação do serviço ao cliente como o processo de comparar o nível de serviço praticado nos diversos indicadores com o nível considerado ótimo. Tucker (1994) sugere que esta comparação seja feita com um padrão estabelecido e com as metas impostas para cada um dos indicadores escolhidos. O grupo de Michigan acrescenta ainda que o grau de importância dos elementos do serviço ao cliente é diferente para cada empresa , de acordo com as necessidades de seus consumidores . Pare se realizar uma boa avaliação do serviço ao cliente, é necessário identificar que clientes possuem expectativas diferentes e não necessariamente desejam o mesmo serviço. Portanto, a identificação do nível de serviço ótimo e as metas a serem estabelecidas devem considerar estas diferenças. A Figura 3 apresenta uma extensa lista de indicadores de desempenho de Serviço ao Cliente apresentados por diferentes autores.
Figura 3 - Exemplos de Indicadores de Serviço ao Cliente Métrica (2): custos De forma geral, as organizações realizam o controle dos custos individuais (análise isolada de cada um dos custos), sendo que apenas aquelas com desempenho logístico de classe mundial monitoram o custo total necessário para o atendimento aos clientes (CLM, 1995). A análise do custo total requer que todos os custos relevantes para a operação sejam medidos e a gerência deve reconhecer a existência de trade-offs, entendendo que em geral é preciso manter uma posição abaixo do ótimo em uma ou mais atividades logísticas para que o sistema como um todo possa operar com eficiência ótima. Outra abordagem que pode gerar informações mais precisas sobre custos é o custeio baseado em atividades (ABC). Utilizando este método, as empresas podem determinar o custo do atendimento a um pedido ou do atendimento a um cliente específico. Este tipo de informação permite aos gerentes avaliar o impacto das potenciais mudanças no serviço prestado e fornece informações para o desenvolvimento de estratégias de segmentação (CLM, 1995). Os pesquisadores de Michigan evidenciaram que as empresas de classe mundial são líderes na aplicação da metodologia ABC . Como regra geral , afirmam que quanto mais sofisticada a logística de uma empresa , mais provável é que ela empregue a metodologia. A Figura 4 mostra uma lista de indicadores de custos e os autores que os apresentam.
Métrica (3): Produtividade As medições de produtividade são tipicamente modeladas para monitorar sistemas que convertem inputs em outputs através da aplicação de trabalho. Para Bowersox e Closs (2001) a produtividade pode ser medida tanto no nível macro quanto no micro. A medição no nível macro se refere a indicadores de desempenho para o total das instalações das operações de um grupo. Dentre estas medidas podem ser citadas as despesas operacionais sobre o valor total das mercadorias processadas ou sobre o valor total das mercadorias recebidas ou mesmo sobre o valor total das mercadorias despachadas. No nível micro, as métricas são aquelas relacionadas diretamente a uma determinada operação: número de pallets movimentados por hora, número de unidades separadas ou empacotadas por hora ou quantidade de pedidos processados por hora, entre outras. A Figura 5 apresenta exemplos de indicadores de desempenho de produtividade. Métrica (4): Gerenciamento de ativos O gerenciamento de ativos e da infra-estrutura logística não deve apenas identificar a forma mais barata em cada atividade, mas sim buscar um sistema que esteja orientado para a performance total do negócio. O Grupo de Michigan sugere que o gerenciamento dos ativos logísticos seja realizado através do monitoramento das seguintes medidas : Nível de estoque : quantidade de material realmente existente em estoque e disponível para uso. Giro de estoque : indicador bastante comum, calculado como a razão do custo das vendas anuais pelo investimento médio em estoque no mesmo período (Ballou, 1992). De forma geral, avalia-se que desde que não haja diferença no nível de disponibilidade de estoque, quanto maior o giro melhor. Entretanto é necessário analisar se o aumento do giro não afeta o custo total aumentando-o (Lambert e Stock, 1993). Obsolescência do estoque : é o custo de cada unidade que precisa ser descartada ou não pode mais ser comercializada no preço normal . É calculada como a diferença entre o custo original e seu valor residual (Lambert e Stock, 1993). Retorno sobre o capital próprio (ROE): é a medida do retorno sobre o investimento dos acionistas durante o ano . É calculado como a razão do lucro líquido obtido no ano pelo patrimônio líquido da empresa . Os estoques são ativos , por isso , ganhos ou perdas obtidas neles afetam o retorno sobre os ativos e conseqüentemente o retorno sobre o capital dos acionistas. Retorno sobre o investimento (ROI): é uma medida que relaciona os lucros provenientes de um investimento com a magnitude do mesmo (Speh e Novack, 1995). A restrição de capital para novos investimentos faz com que as empresas busquem a maximização do retorno sobre o capital empregado (Lima, 2003). Classificação do estoque utilizando a curva ABC : A curva ABC parte da observação de que em muitas empresas , 80% das vendas é gerada por 20% dos produtos . Neste tipo de gerenciamento, os produtos devem ser agrupados de acordo com o seu volume de vendas , os 20% mais comercializados são denominados itens A, os próximos 30% itens B e os demais itens C. Cada uma destas três categorias deve ser tratada de forma diferente, por exemplo, produtos classificados como A devem ter maior disponibilidade. Lambert e Stock (1992) recomendam ainda o uso do retorno sobre os ativos (ROA), informando que esta seria a melhor medida individual para a performance corporativa, pois mostra a lucratividade em relação ao valor dos ativos empregados. Os exemplos de indicadores de gerenciamento de ativos estão apresentados na Figura 6.
Considerações finais O modelo World Class Logistics apresenta as competências logísticas a serem perseguidas por organizações que buscam alcançar um desempenho logístico equivalente ao de empresas de classe mundial. Dentre as competências necessárias, este artigo destacou a necessidade de um sistema eficaz de Mensuração de Desempenho, capaz de avaliar a performance logística das empresas. A performance logística deve ser medida sob diversas dimensões e para tanto devem ser utilizados indicadores que capturem, se não todas, as dimensões mais importantes que forneçam aos gerentes uma visão tanto de curto como de longo prazo e que sejam capazes de refletir os principais objetivos de performance da companhia. Segundo o modelo apresentado, dentre as Métricas a serem utilizadas devem constar indicadores de serviço ao cliente , produtividade, custo , e gerenciamento de ativos. Adicionalmente ao acompanhamento das Métricas, o modelo World Class Logistics propõe ainda que é preciso adotar algumas Perspectivas de análise, assim como um sistema de Gerenciamento que permita a maior eficácia da mensuração de desempenho na empresa (ver Figura 6). Estes dois aspectos serão tratados na Parte 2 deste artigo, a ser publicado futuramente nesta revista.
Referências bibliográficas: BALLOU, Ronald H. Logística Empresarial: transportes, administração de materiais e distribuição física . São Paulo : Atlas, 1993. BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D.; Logística Empresarial: O processo de integração da cadeia de suprimento . São Paulo : Atlas, 593 p., 2001. BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D.J.; HELFERICH, O. K. Logistical management . New York : Macmillan, 586 p., 1986. CLM - COUNCIL OF LOGISTICS MANAGEMENT. World Class Logistics: the Challenge of Managing Continuous Change : CLM Oak Brook, 1995. COYLE, J.J.; BARDI, E.J.; LANGLEY, C.J. The management of business logistics , 5 th ed., New York : West Publishing Company, 1992 Apud COLLINS, A.; HENCHION, M.; O´REILLY, P. Logistics customer service: performance of Irish food exporters. International Journal of Retail & Distribution Management , v.29, n.1, p.6, 2001. EMMERSON, C.J.; GRIMM, C.M. Logistics and marketing components of customer service: an empirical test of the Mentzer, Gomes and Krapfel model. International Journal of Physical Distribution & Logistics Management , v.26, n.8, p. 29-42, 1996. FLEURY, P.F.; LAVALLE, C. Avaliação do serviço de distribuição física : a relação entre a indústria de bens de consumo e o comércio atacadista e varejista . In: FLEURY, P.; WANKE, P.; FIGUEIREDO, K. (org). Logística Empresarial , a perspectiva brasileira . São Paulo : Atlas , p.76-89, 2000. FRAZELLE, E. Supply Chain Strategy : the logistics of Supply Chain Management. McGraw-Hill, 357p., 2001. LAMBERT, D.M; STOCK, J.R. Strategic Logistics Management . Homewood , Ill. : R.D. Irwin, 862p., 1993. LIMA , M.P. Estoque : custo de oportunidade e impacto sobre os indicadores financeiros , Disponível em www.cel.coppead.ufrj.br , 2003. PISHARODI, M.R.; LANGLEY JR, J.C. A perceptual process model of customer service based on cybernetic/control theory. Journal of Business Logistics , v.11, n.1, p. 26-48, 1990. SPEH, T.W.; NOVACK, R.A. The management of financial resources in logistics. Journal of Business Logistics , v.16, n.2, p.23-42, 1995. STAINER, A. Logistics - a productivity and performance perspective. Supply Chain Management , v.2, n. 2, p. 53-62, 1997.TUCKER F.G. Creative customer service management. International Journal of Physical Distribution Management , v.24, n.4, p.32-40, 1994. Recentemente o CLM (Council of Logistic Management) alterou seu nome para CSCMP (Council of Supply Chain Management Professionals). |
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