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Serviço de Distribuição Física como Fator Determinante
no Processo de Decisão de Compra do Comércio Supermercadista
(parte 2) Cesar Lavalle Introdução
A primeira
parte deste artigo apresentou o serviço de distribuição física
como fator determinante do processo de decisão de compras do comércio.
Nesse sentido, constatou-se que o ambiente econômico vigente nos últimos
anos tem sido determinante para o aumento de importância do serviço
de distribuição física para relações comerciais ao longo da cadeia de
bens de consumo, mais especificamente entre o elo que compreende fabricantes
e redes de supermercados. Esta segunda
parte procura avaliar: Qual o nível de satisfação do comércio com o
serviço de distribuição da indústria de bens de consumo? As empresas
detentoras das melhores práticas têm seu desempenho diferenciado pelo
comércio varejista? O
Nível de Satisfação do Comércio com o Serviço de Distribuição da Indústria As
análises sobre a dinâmica da qualidade percebida do atendimento prestado
pela indústria para o comércio varejista consideram as três principais
dimensões do serviço de distribuição física da indústria: disponibilidade
de produto; tempo de ciclo do pedido; e consistência do
prazo de entrega. A
pesquisa avaliou tanto as indústrias detentoras das melhores práticas
quanto aquelas com desempenho médio do setor. O nível de insatisfação
foi obtido a partir da percepção do desempenho da indústria relacionado
ao nível de serviço mínimo esperado pelo comércio. As Figuras 3 e 4
apresentam a evolução do percentual de comerciantes insatisfeitos com
o desempenho das indústrias nos últimos dez anos. Num
primeiro momento, conforme verificado na primeira parte deste artigo,
o súbito aumento de demanda promovido pelo plano de estabilização econômica
em 1994, propiciou a valorização do serviço de distribuição física.
Isto ocasionou um aumento do nível de insatisfação com o serviço prestado
pela indústria em geral:
No
entanto, após uma recuperação em 1997, verificou-se que o percentual
de insatisfeitos aumentou para os fornecedores detentores das melhores
práticas, enquanto as indústrias com desempenho médio apresentaram melhor
sorte. Em
2001, conforme apresentado na primeira parte deste artigo, o serviço
ao cliente se encontrava em patamar superior em termos de importância
no processo de decisão de compras do comércio. Isto aconteceu em razão
da forte crise econômica observada no período entre 2001 e 2003. Neste
período a inflação cresceu 38,5%, a renda do trabalhador foi reduzida
em 20,3% e a economia teve crescimento médio anual de apenas 1% ao ano.
Por conta deste quadro negativo, observou-se novamente uma piora generalizada
em termos de satisfação, desta feita em ritmo mais acentuado. Conforme
apresentado na primeira parte deste artigo, a perda de poder aquisitivo
do consumidor induziu o comércio a reduzir o padrão de compras junto
à indústria, dando ênfase ao preço em detrimento ao produto. Ao
analisar as Figuras 3 e 4, verifica-se que as indústrias detentora das
melhores práticas absorveram bem o aumento de demanda, num primeiro
momento, apresentando pouca variação em termos de varejistas insatisfeitos
com o serviço de distribuição física entre 1994 e 1995. No entanto,
este número de insatisfeitos começou a crescer desde 1997 até 2003:
de 7,0% para 42,9% de insatisfeitos com consistência do prazo de
entrega
[1]
; de 7,0% para 22,2% de varejistas insatisfeitos com
a disponibilidade de produto
[2]
; e de 7,0% para 19,9% de insatisfeitos com o tempo
do ciclo de pedido
[3]
. No
caso da indústria média do setor, houve um grande aumento de insatisfeitos
entre 1994 e 1995, e um longo período de melhoria até 2001, quando todo o setor passou a apresentar uma piora generalizada
significativa até 2003. As Figuras 3 e 4 ilustram claramente o forte
declínio de varejistas satisfeitos após 2001. A
piora do desempenho médio das indústrias do setor, entre 1994 e 1995,
foi a seguinte: de 40,0% para 71% de insatisfeitos com consistência
do prazo de entrega; de 19,0% para 45,0% de insatisfeitos com o
tempo do ciclo de pedido; e de 30,0% para 41,0% de varejistas
insatisfeitos com a disponibilidade de produto. A partir de então, o percentual de insatisfeitos
com a disponibilidade de produto reduziu de 41,0% em 1995 para
25,0% em 2000, aumentando para 33,2% em 2003; no caso da consistência
do prazo de entrega houve uma redução de 71,0% para 40,5% entre
1995 e 2001, e um aumento para 71,9% até 2003; e para o tempo do
ciclo de pedido o percentual de insatisfeitos reduziu de 45,0% para
18,9% entre 1995 e 2001, aumentando para 42,3% em 2003. Em
suma, a análise aponta para um abrupto crescimento generalizado de insatisfação
do comércio com o serviço de distribuição física prestado pela indústria
nos últimos anos, notadamente a partir de 2001. A piora mais acentuada
na dimensão consistência do prazo de entrega pode ser reflexo
de pressões por uma logística mais enxuta, onde a tolerância para dar
conta às incertezas é reduzida. Nesse
sentido, iniciativas de redução de estoque e tempo de entrega devem
ser acompanhadas por processos operacionais e decisórios ágeis baseados
em informações relevantes, precisas e oportunas. Assim, pode-se afirmar
que "informação substitui estoque". Caso contrário aumenta-se a possibilidade
de ruptura do fluxo físico por stock-outs ou atraso do produto. É
interessante ressaltar que foi em 2000 que o serviço de distribuição
saltou para um patamar superior em termos de importância nas relações
comerciais entre o varejo e a industria - justamente quando se sentiu
todo o impacto negativo da crise econômica instalada desde 1999. Foi
também em 2001 que o preço voltou a ser a principal variável
de decisão de compra do comércio em detrimento ao produto. A seguir,
será avaliada a dinâmica do nível de insatisfação: Será função da variação
do nível de exigência do comércio, ou do desempenho da industria, ou
de ambos simultaneamente?
O
Nível de Exigência do Comércio e o Desempenho da Indústria Via
de regra, observa-se, nas Figuras 5, 6 e 7, o aumento significativo
do nível de exigência do comércio por melhor serviço de distribuição
física da indústria, nas três principais dimensões do serviço, notadamente
a partir de 1997 e de 2001. É importante ressaltar que em alguns anos,
apesar do melhor desempenho da indústria, houve aumento de varejistas
insatisfeitos. Nestes casos, a melhoria de desempenho não foi suficiente
para compensar o aumento em exigência. Esses
efeitos combinados ressaltam a importância de monitoramento permanente
das necessidades de segmentos de clientes, bem como do desempenho percebido
pelos mesmos. Afinal, o objetivo chave é oferecer serviços relevantes
a segmentos de clientes que possam se tornar fonte de diferenciação
frente a concorrência. No caso da dimensão disponibilidade de produto, a expectativa mínima do comércio referente ao percentual entregue do total pedido variou num primeiro momento de 87 % em 1994 para 85% em 1997. Em seguida observa-se um aumento significativo do nível de serviço exigido, de 85% em 1997 para 93% em 2000, regredindo para 90% em 2001 (ver Figura 5). A partir de 2001 verifica-se um aumento substancial da expectativa mínima: de 90% em 2001 para 98,2% em 2003 - o maior nível de toda série histórica.
Ao
contrário das melhores práticas, as indústrias com desempenho médio
do setor tiveram tendência de melhoria do nível do serviço oferecido
no mesmo período, notadamente a partir de 1997. O percentual entregue
do total pedido que era de 93,8% em 1994, reduziu para 90,0% em 1997,
voltando a alcançar 94,0% em 2003. A Figura 6 ilustra também um forte aumento de exigência por consistência do prazo de entrega, notadamente desde 1997 e 2001. O nível de tolerância por entregas atrasadas que era de 10,7% em 1994 passou para 15,3% em 1997, chegando a 5,9% em 2000. Em 2001 a exigência mínima regrediu para 8,7% de entregas atrasadas. Atualmente o comércio não tolera mais que 3,8% de atraso no total de pedidos realizados no mês.
O
desempenho da prática de mercado que estava em 15,8% em 1994, piorou
significativamente em 1997, chegando a 21,1%. Já em 2000 o índice apresentou
seu menor valor, 13%. Entretanto, desde então, este índice voltou a
crescer e em 2003 a prática de mercado voltou a ter em média 15,3% de
entregas atrasadas. A dimensão tempo de ciclo do pedido confirma a tendência de aumento de exigência dos varejistas ao longo do período considerado. A tolerância em termos de tempo de ciclo que era no máximo de 4,2 dias em 1994, passou para 2,1 dias em 2003, conforme observado na Figura 7.
Em
grande medida, o desempenho da indústria média do setor tem apresentado
consistente aperfeiçoamento no mesmo período. O tempo de ciclo que entre
1994 e 1997 estava em patamar de 4,2 dias foi reduzido a 2,9 dias em
1999. Após uma piora em 2000, quando o desempenho chegou a 3,5 dias,
o tempo de ciclo em 2003 melhorou ao nível de 2,6 dias. Aparentemente,
esta é uma dimensão em que o comércio percebe uma convergência de desempenho
da indústria como um todo. Assim, o potencial de diferenciação torna-se
menos evidente para as empresas detentoras das melhores práticas. Considerações
Finais Os dados da pesquisa, de forma geral, indicam que nos últimos
anos o comércio demonstra uma crescente insatisfação com relação ao
processo de distribuição física da indústria, considerando as três principais
dimensões do serviço ao cliente. É
importante assinalar que os altos e crescentes níveis de insatisfação
observados, notadamente a partir de 2001, têm como base o forte aumentado
da importância relativa do serviço de distribuição no processo de decisão
de compras do comércio, que é posto em prática na medida em que este
exige um melhor desempenho da indústria em termos de disponibilidade
de produto, consistência do prazo de entrega e tempo do ciclo do pedido. Observa-se,
portanto, que o forte aumento do nível de exigência a partir de 2001
implicou no agravamento do quadro de insatisfação com as melhores práticas
na medida em que estas também apresentaram queda de desempenho. Para
as indústrias médias do setor, mesmo quando houve melhoria de desempenho,
este não foi suficiente para evitar o aumento de insatisfação no período. Do
ponto de vista do desempenho, observa-se que em geral as empresas detentoras
das melhores práticas estão perdendo destaque em termos de diferenciação
no setor. Este fato é especialmente observado no tempo de atendimento
dos pedidos realizados pelo comércio. Considerando
as análises apresentadas em ambas as partes do artigo, os resultados
de pesquisa indicam que, quando o poder aquisitivo do consumidor decresce,
o varejo se adequa às suas necessidades, encomendando produtos mais
acessíveis à indústria. Ou seja, o preço ganha espaço do produto
no processo de decisão de compras do comércio. Cabe
ressaltar que ambientes altamente competitivos caracterizados pela crescente
importância do preço e da promoção e propaganda, em detrimento
do produto, podem levar a um processo de commoditização do setor.
É
importante frisar que a diferenciação está na raiz de estratégias vencedoras.
Isto está baseado na constatação de que a não ser que produtos possam
ser diferenciados dos concorrentes, existe grande possibilidade de que
o mercado os percebam como "commodities". Nesse caso, o preço
passa a ser o cerne da competição, que por seu turno pode levar a rentabilidade
decrescente do negócio. A
melhor forma de contornar esta "armadilha" é a incorporação de serviços
aos produtos oferecidos como forma de agregação de valor para que o
mercado os diferenciem frente à concorrência. Esta situação se agrava
se considerarmos que no mercado de bens de consumo existe uma convergência
tecnológica, que dificulta a diferenciação com base nas características
de produto. Soma-se ainda o fato de que o consumidor final, por conta
da forte corrosão de rendimentos, exerce forte pressão para que os varejistas
negociem com a indústria com base em preços mais acessíveis. A
"guerra de preços" pode ser contornada, em grande medida, por meio de
serviços logísticos que simultaneamente podem promover melhorias em
termos de nível de serviço e redução de custos na cadeia de suprimento.
O
mercado varejista apresenta-se cada vez mais perceptível aos benefícios
advindos da maior confiabilidade e capacidade de resposta de seus fornecedores,
que se refletem em racionalização de custos operacionais em razão da
melhor utilização da capacidade instalada e redução dos níveis de estoque.
Cabe lembrar que, atualmente, os acionistas têm no retorno sobre ativos
um dos indicadores de performance mais relevantes na avaliação de suas
empresas. Se
considerarmos que todos os custos irão, de uma forma ou de outra, se
propagar ao longo da cadeia de suprimento, em última instância estes
se refletirão em preço mais acessível ao consumidor final, e contribuir
para a manutenção de margens atrativas. É sempre importante lembrar
que as empresas de vanguarda reconhecem que a base da competição se
deslocou de empresa versus empresa para cadeia de suprimento versus
cadeia de suprimento. Em
suma, o quadro geral de aumento da importância do serviço de distribuição
no processo de decisão de compras do comércio, combinado com a deterioração
do desempenho da indústria e o aumento do nível de exigência do comércio,
deve ser percebido como uma oportunidade de desenvolvimento de estratégias
competitivas que tenham forte ênfase em capacitação logística. Bibliografia
[1]
Medido em termos do tempo de
atraso e o percentual de entregas atrasadas
[2]
Medida em termos do percentual
do pedido firmado com relação a demanda original, o percentual entregue
do total pedido, o tempo decorrente para a entrega de pendências [3] Tempo decorrido entre a tirada do pedido e a efetiva entrega do produto
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