| |
|
Teoria
das Restrições: Principais Conceitos e Aplicação
Prática
Peter
Wanke, D.Sc.
Introdução
A Teoria das Restrições, também denominada de TOC
(Theory of Constraints) é um desenvolvimento relativamente recente
no aspecto prático da tomada de diversas decisões organizacionais
nas quais existem restrições. A TOC foi inicialmente descrita
pelo Dr. Eliyahu Goldratt em seu livro, A Meta.
Uma restrição é qualquer coisa numa empresa que
a impede ou limita seu movimento em direção aos seus objetivos.
É claro que a aplicação da TOC requer uma apropriada
definição dos objetivos a serem atingidos. Para a maior
parte das empresas, o objetivo principal é o lucro presente e
sua sustentabilidade no futuro. Existem dois tipos básicos de
restrições: físicas e não-físicas.
As restrições físicas na maior parte das vezes
estão relacionadas a recursos: máquinas, equipamentos,
veículos, instalações, sistemas etc. As restrições
não-físicas podem ser a demanda por um produto, um procedimento
corporativo ou mesmo um paradigma mental no encaminhamento de um problema.
Numa empresa industrial, a TOC envolve três indicadores de desempenho
que permitem avaliar se o conjunto das operações está
se movendo em direção aos objetivos (lucro):
-
Rentabilidade:
é a taxa pela qual a empresa constrói seu lucro através
da comercialização de seus produtos. Em essência,
a rentabilidade de um produto poderia ser aproximada pela margem de
contribuição (preço de venda - custo variável
das matérias-primas). Os custos de mão de obra e outros
custos fixos são considerados como parte das despesas operacionais.
-
Despesas
operacionais: todo o dinheiro gasto pela empresa na conversão
de seus estoques em margem de contribuição.
-
Estoques:
todo o dinheiro imobilizado pela empresa em coisas que podem ou poderiam
ser comercializadas. Os estoques incluem não apenas os itens
convencionais (matérias-primas, produtos em processamento e
produtos acabados), mas também edifícios, terras, veículos,
equipamentos. Não é incluído nos estoques, portanto,
o valor do trabalho adicionado aos estoques dos produtos em processamento.
Percebe-se
que a TOC possui uma ligação bastante forte com a contabilidade
gerencial, especificamente com a abordagem de custeio pela margem de
contribuição. Está claro que a utilização
dos princípios geralmente aceitos na contabilidade financeira
ou para fins legais pode levar a decisões subótimas, basicamente
pela necessidade de alocar e ratear todos os custos fixos aos centros
de custo, os quais, eventualmente, podem ser restrições.
Outros quatro indicadores de desempenho podem ser calculados a partir
da Rentabilidade, das Despesas operacionais e dos Estoques:
Margem líquida = rentabilidade - despesas operacionais
Retorno Sobre o Investimento (RSI) = (rentabilidade - despesas operacionais)
/ estoque
Produtividade = rentabilidade / despesas operacionais
Giro = rentabilidade / estoques
Deve ser observada a ligeira diferença destes indicadores, especificamente
o Giro e o RSI, quando feita a transposição dos princípios
da contabilidade financeira para a gerencial. Por exemplo, na contabilidade
financeira, o Giro é definido como vendas / estoques.
Aplicação e Implementação
A TOC tem sido aplicada em três diferentes níveis de tomada
de decisão: gerência da produção, na resolução
de problemas relacionados aos gargalos, à programação
e à redução dos estoques; análise de rentabilidade,
levando à mudança de decisões baseadas em custo
para decisões baseadas na melhoria contínua das operações
que afetam a rentabilidade; e, gestão de processos, na identificação
de fatores organizacionais, que não são necessariamente
recursos, que impedem as empresas de atingirem seus objetivos.
São cinco os passos para aplicação da TOC.
-
Identificar
a restrição do sistema.
Numa empresa industrial, a restrição pode ser o tempo
disponível ou a capacidade de uma máquina, de um departamento
ou de uma estação de trabalho. Para empresas de serviços
ou de alta tecnologia, a restrição pode ser o tempo
disponível dos funcionários mais capacitados.
-
Calcular
a rentabilidade por unidade de recurso consumida na restrição.
Este valor é obtido pela divisão da rentabilidade ou
margem de contribuição unitária pelo consumo
de recursos da restrição para produzir um produto. A
chave para maximizar o lucro é concentrar na produção
e na comercialização de produtos com a maior rentabilidade
por unidade de recurso consumida na restrição.
-
Subordinar
o sistema à restrição.
Os recursos e estoques devem ser gerenciados de modo a prover exatamente
o necessário para atingir os objetivos definidos para a restrição.
Este passo pode implicar na ociosidade de recursos que não
são restrições. Normalmente o sistema é
subordinado a restrição através de um método
de programação e controle da produção
chamado de Tambor-Pumão-Corda (Drum-Buffer-Rope ou DBR).
-
Romper
ou elevar a restrição do sistema.
Através da melhoria contínua das operações,
da aquisição de capacidade ou de flutuações
na demanda, por exemplo, a restrição do sistema pode
ser rompida ou elevada, de modo que a esta restrição
deixe de sê-lo. Uma nova restrição física
ou não física, interna ou externa, assumirá o
papel da restrição anterior.
-
Identificar
a nova restrição do sistema caso a restrição
seja rompida.
Deve ser observado, no entanto, que a implementação
da TOC pode exigir uma mudança substancial na maneira com que
a empresa opera. Por exemplo, suponha que, numa empresa, produzir
e comercializar o produto de menor preço unitário e
maior demanda maximize o lucro (objetivo). Se a empresa remunera sua
força de vendas com base em comissões como um percentual
da receita, pode existir um incentivo implícito para vender
os produtos mais caros. Este cenário demandaria uma nova política
de remuneração da força de vendas.
Tambor-Pumão-Corda
(DBR)
O DBR é o método de programação e controle
da produção que permite subordinar o sistema à restrição.
Seu objetivo é assegurar a máxima utilização
da restrição para atender à demanda. O Tambor (Drum)
é a programação detalhada da restrição,
com os itens a ser produzidos, suas quantidades, os horários de
início e de término. A demanda é o ponto de partida
para a determinação do Tambor.
Os recursos que não são restrição devem seguir
o ritmo da restrição. É por isto que a programação
da restrição é chamada de Tambor, por "determinar
o ritmo de toda a tropa". Os recursos que não são restrição
devem ser gerenciados de modo a não faltarem itens na restrição,
caso contrário, o objetivo será ameaçado. Como os
recursos que não são restrição possuem maior
capacidade que a demanda, não é necessário programá-los.
O método DBR sinaliza para a liberação dos itens
necessários para a alimentação do Tambor e para que
os recursos que não são restrição processem
esta quantidade o mais rápido possível.
Em função das incertezas, uma proteção deve
ser criada para a liberação dos itens algum tempo antes
de seu processamento na restrição. Esta proteção
é chamada de Pulmão (Buffer), e na TOC, o Pulmão
é medido em unidades de tempo, e não quantidades de itens.
A duração do Pulmão é influenciada pela velocidade
dos outros recursos que não são restrições
e pela variância do tempo de resposta das operações.
Maior a variância, maior a duração do Pulmão.
Maior a velocidade dos outros recursos, menor o Pulmão.
Em linhas
gerais o Pulmão é criado para proteger a programação.
É uma antecipação do instante de liberação
dos itens de modo a garantir o cumprimento do programa de produção.
Na TOC pode haver três tipos de pulmão:
- Pulmão
da Restrição (Constraint Buffer) - objetiva proteger
o Tambor com a liberação antecipada dos itens para a restrição.
- Pulmão
do Carregamento (Shipping Buffer) - a restrição não
é o único elemento com programas a serem observados. O
carregamento dos produtos acabados também deve ser protegido
com um pulmão, de modo a ser assegurada a confiabilidade dos
prazos para os clientes.
- Pulmão
da Montagem (Assembly Buffer) - quando os itens que foram processados
pela restrição devem ser montados com itens que não
passaram pela restrição, é necessário criar
outra proteção. Neste caso, todas as partes que passaram
pela restrição devem ser utilizadas para formar o produto
acabado e desta forma, nenhum item "não-restrição"
deve estar faltando.
Nem todas
as empresas industriais necessitam dos três tipos de pulmão.
Esta decisão depende do tipo de processo e da localização
da restrição. Se existe uma restrição física,
associada a um recurso, haverá pelo menos 2 pulmões, o da
restrição e o do carregamento. O Pulmão da Montagem
será necessário se houver uma operação que
conjuga itens que foram com outros que não foram processados por
restrições. Todos os itens se enquadram em duas alternativas:
- Os itens
que são processados pela restrição terão
em seu fluxo dois pulmões: da Restrição e do Embarque.
- Os itens
que são montados com outros itens que são processados
pela restrição terão em seu fluxo dois pulmões:
da Montagem e do Embarque.
Tomando o
Tambor como o ponto de partida e subtraindo o Pulmão da Restrição
é possível determinar o instante da liberação
dos itens. A Corda assegura que será liberada a quantidade exata
de itens que será processada pela restrição. Em outras
palavras, através da Corda é assegurado que todos os recursos
operarão no mesmo ritmo que a restrição, sem elevação
nos níveis de estoque em processamento.
A aplicação do método DBR para subordinação
do sistema à restrição, deve observar outros passos
adicionais, além dos cinco passos comentados na seção
anterior:
- Representar
num gráfico de Gantt o Tambor, ou seja, a programação
detalhada da restrição ao longo do tempo;
- Decidir
o tamanho adequado dos pulmões de Restrição,
de Montagem e de Carregamento para cada produto;
- Subtrair
o Pulmão da Restrição do início da operação
da correspondente restrição, representada no gráfico
de Gantt, para determinar o instante de liberação dos
itens de modo a apoiar o Tambor.
- Subtrair
o Pulmão da Montagem do final da operação da correspondente
restrição para determinar a liberação
dos itens de modo a apoiar a montagem de itens que não foram
processados pela restrição com itens que foram processados
pela restrição.
- Adicionar
o Pulmão do Carregamento ao final da operação da
correspondente restrição para determinar a data de
carregamento do produto, se a produção for para estoque.
Se a produção for contra-pedido, o Pulmão do Carregamento
deve ser subtraído da data de entrega para determinação
do instante de liberação dos itens.
- Desenvolver
uma programação para a produção de itens
em pontos divergentes, ou seja, uma operação onde
dois ou mais produtos podem ser fabricados a partir do mesmo item em
comum com base nas programações da restrição,
do carregamento e da montagem.
Na seção
seguinte é exemplificada a adoção dos passos da TOC
e do método DBR numa empresa fictícia que fabrica dois produtos.
Aplicação Prática
Uma empresa fabrica dois produtos, Y e Z que são processados em
quatro departamentos, A, B, C e D. O produto Y requer três tipos
de materiais: M1, M2 e M4. O produto Z requer dois tipos de materiais,
M2 e M3. Na Figura 1 são representadas as lógicas das estruturas
dos produtos (logical product structures). A combinação
da lista de materiais ou itens (bill of materials) de um produto com o
roteiro das operações (ou das estações de
trabalho, ou dos departamentos) percorrido pelos itens que compõem
este produto (part routings) forma a lógica da estrutura dos produtos.
Figura
1 - Lógicas das estruturas dos produtos

|
Os
requisitos de fabricação para cada produto são
resumidos na Tabela 1:
Cada departamento
tem 2400 minutos de capacidade disponível por semana. As despesas
operacionais desta empresa hipotética são de $ 30000 por
semana. Com base na demanda corrente, a empresa consegue vender 100
unidades do produto Y e 50 unidades do produto Z por semana. Os preços
de venda são $ 450 para o produto Y e $ 500 para o produto Z.
Todos os quatro materiais são disponíveis em quantidades
suficientes. A mão de obra necessária também está
disponível.
A abordagem que é apresentada a seguir é particularmente
útil quando são apenas dois produtos e existe apenas uma
restrição ativa além da demanda. Todavia, a abordagem
por programação linear torna-se necessária em situações
mais complexas, com múltiplos produtos e diversas restrições
ativas além da demanda.
O primeiro passo consiste na determinação da restrição
do sistema. Para isto, as necessidades totais de tempo de cada departamento
para se atender a demanda semanal corrente de Y e de Z devem ser calculadas,
conforme é indicado na Tabela 2, e confrontadas com a capacidade
disponível.
Como cada departamento possui capacidade disponível de 2400 minutos
por semana, o departamento B é a restrição por
não possuir capacidade suficiente para atender semanalmente às
100 unidades de Y e às 50 unidades de Z.
O segundo passo depende inicialmente da determinação da
rentabilidade ou da margem de contribuição unitária
para cada produto. Isto é necessário para determinar como
gerenciar a restrição de modo a maximizar o lucro. A rentabilidade
unitária é dada na Tabela 3.
Na Tabela 3 são fornecidos os elementos necessários para
completar o segundo passo e determinar a rentabilidade por unidade de
recurso consumida na restrição para fabricar o produto.
Este cálculo é indicado na Tabela 4.
O terceiro passo consiste na subordinação do sistema à
restrição. Nesta aplicação prática,
a maximização do lucro passa pela fabricação
do maior número possível de unidades com maior rentabilidade
por unidade de recurso consumida na restrição. Para atender
a demanda, a empresa deveria produzir 100 unidades de Y. Isto consumiria
(100 unidades)(15 minutos) = 1500 minutos da capacidade disponível
de B e deixaria 2400 - 1500 = 900 minutos semanais para a fabricação
de 30 unidades de Z, ou seja, 900 minutos / 30 minutos por unidade =
30 unidades.
Na Figura 2 é ilustrada graficamente a abordagem adotada para
determinação dos tamanhos de lote de produção.
Para construir este gráfico, devem ser determinadas inicialmente
as restrições que delimitam o espaço das soluções
viáveis. Nesta empresa, as restrições são
a demanda corrente pelos dois produtos (Y = 100 e Z = 50) e o trade-off
do consumo de recursos do departamento B por unidade produzida (15Y
+ 30Z = 2400). Observando-se este trade-off e ignorando-se as demandas
correntes, o departamento B poderia produzir 160 unidades de Y (2400/15)
e nenhuma unidade de Z ou 80 unidades de Z (2400/30) e nenhuma de Y
ou qualquer combinação de Y e Z que totalize 2400 minutos
semanais. Esta combinação é representada pela linha
que liga estes pontos na Figura 2.
A solução que maximiza a margem de contribuição
deve ser encontrada nos vértices que delimitam o espaço
das soluções viáveis.A margem de contribuição
é dada pela equação 235Y + 300Z. Na Tabela 5 são
apresentados os resultados para a equação da margem de
contribuição em função destes vértices.
Finalmente,
o lucro semanal pode ser calculado ao serem incorporadas as despesas
operacionais. Lucro semanal = $ 32500 - 30000 = $ 2500. Uma vez que
a restrição foi identificada e o mix de produção
definido, um gráfico de Gantt detalhando o Tambor (programação
da restrição, ou seja, do departamento B) deve ser construído.
Diversas programações são viáveis e, para
efeito de simplificação, supõe-se que não
há incertezas no sistema e que o cliente não estabeleceu
prazos para recebimento, de forma que todos os pulmões (restrição,
montagem e carregamento) são iguais a zero. Também supondo
os tempos de set up iguais a zero no departamento B, lotes iguais à
demanda diária podem ser produzidos sem a criação
de uma nova restrição. Neste caso, seriam 20 unidades
de Y (100/5) e 6 unidades de Z (30/5) para turnos de 480 minutos (2400/5).
O gráfico de Gantt para o Tambor é apresentado na Figura
3, além dos instantes para liberação e recebimento
dos itens nas operações realizadas em cada departamento.
Percebe-se que a taxa de utilização da restrição
é de 100%, ao passo que a utilização nos outros
departamentos é inferior ao limite máximo, sendo alternados
períodos de ociosidade com ocupação.
Conclusões
A TOC é uma filosofia para o planejamento da produção,
ancorada em técnicas de programação linear, na
qual as restrições determinariam o desempenho (lucratividade)
do sistema. A operacionalização do planejamento pela TOC
em um programa de produção ocorre através do método
DBR. Pelo DBR, todo o sistema é subordinado à programação
da restrição (Tambor), os diferentes pulmões são
incorporados para proteger o tambor das incertezas do sistema e as cordas
asseguram a liberação das quantidades exatas.
O objeto de análise pela TOC e pelo DBR é a lógica
da estrutura dos produtos, ou seja, a combinação da lista
de materiais com o roteiro das operações (ou das estações
de trabalho) percorridas pelos itens que compõem estes produtos.
No MRP (Materials Requirements Planning), ao contrário, o objeto
de análise para formulação do planejamento e da
programação da produção é a lista
de materiais e sua defasagem no tempo, de modo a assegurar a execução
do MPS (Programa Mestre de Produção) a partir de uma previsão
de vendas.
Dado que não é possível afirmar, a priori, a superioridade
da TOC sobre o MRP ou qualquer outra política para o planejamento
e a programação da produção, a escolha de
uma determinada política depende substancialmente de quão
fácil e direta é a associação entre matérias-primas,
itens em processamento e necessidades líquidas com a programação
de produtos acabados. Silver, Pike e Peterson defendem que existe uma
conexão direta entre a posição na matriz produto-processo
e a facilidade desta associação. Neste caso, conforme
ilustra a Figura 4, a TOC seria, por exemplo, mais adequada para situações
job shop (oficina) com diversos produtos principais.
Bibliografia
sugerida além do livro A Meta de Eliyahu Goldratt
- Anônimo,
"What is the theory of constraints and how does it compare to lean
thinking?" in www.qmi.ans.au (acesso em 17/12/2003).
- Corbett,
T., 2003, "Drum-Buffer-Rope" in www.corbett.pro.br (acesso
em 17/12/2003).
- Silver,
E., Pyke, D., Peterson, R., 2002, Inventory Management and Production
Planning and Scheduling, 3rd Edition, New York: Wiley & Sons.
- Sytsma,
S., 2003, "The Theory of Constraints - Making Process Decisions
Under Conditions of Limited Resources, Capacities or Demand" in
www.sytsma.com.
Retorna
|